27 Nov 2016 | domtotal.com

Eu te amo


Por Nany Mata

Vou começar com um spoiler: esta postagem acaba com um vídeo e, com ele, você vai sentir um desejo incontrolável de dizer a você mesmo que se ama.

Amar. Esse verbo transitivo (inteligentemente chamado por Mário de Andrade de intransitivo), que nos parece tão óbvio, mas tem por trás do nome simples tamanha complexidade. Não sei você, mas já me peguei, sem querer, com crises de autoestima. Sabe aqueles dias em que o espelho parece o pior de nossos inimigos e a gente quer passar longe dele porque não gosta do que vê? Um sentimento de que não nos amamos.

Tem gente que passa por isso vez ou outra, há também quem nunca tenha se aceitado ou amado. E, pode ser ainda mais sério do que isso. Desconhecer o amor pode levar a consequências mais graves. Voltando há alguns anos para compartilhar com você, leitor, uma experiência intrigante pela qual passei. Lembro dos meus primeiros contatos com pessoas privadas de liberdade e da minha (que talvez seja sua) ignorância tão recorrente aqui de fora.

Acostumada a nossos julgamentos tão precipitados sobre as maldades deles, a falta de coração, respeito, amor, recebi uma das maiores lições da minha vida, quando ousei usar o termo “amor de mãe”, dentro de uma cadeia. Abuso dentro de casa, violência, às vezes, até prostituição e uso de drogas, tudo isso, com aval da mãe. Como explicar a um cara que cresceu nesse contexto o que é amor? Como falar em respeito e amor ao próximo? Como sugerir que existe amor de mãe se essa mãe nunca demonstrou amar?

Se o amor é uma lição difícil, cheia de meandros, ódio parece mais fácil de aprender. A lógica é mais simples: minha mãe passou minha infância toda apanhando, também devo bater. E por aí vai... O cérebro humano, diz a ciência, grava mais facilmente nossos traumas, os danos que sofremos, enquanto apaga as demonstrações de afeto. Se a frequência entre elas é muito dispare, aí a coisa fica ainda mais feia. Não se aprende a ter amor ou respeitar. Odeia-se.

Engraçado que, do meu lugar cômodo de quem cresceu em um lar cheio de amor, achava que amar era coisa que nascia com a gente. Mãe? A gente ama e pronto. Assim como pais, filhos, irmãos, tios... Não é bem assim, não. Amor tem que ser aprendido de cá e cativado de lá. Amor vem com respeito: me desrespeite e não o amo, ora! Tem que aprender a amar os outros e a si mesmo. Tem que conquistar até o próprio amor. Tem que se olhar no espelho e ver mais que um reflexo.

Nany Mata
Jornalista, especialista em Gestão Estratégica em Comunicação, ambos pela PUC Minas. Trabalhou e é voluntária da Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (Apac), entidade sem fins lucrativos que visa a humanização no cumprimento da pena e a ressocialização de indivíduos que cometeram delitos. Como funcionária da entidade, tornou-se também voluntária e entusiasta dos Direitos Humanos. Atualmente é assessora de imprensa, tem ainda experiência como community manager, social media e reportagem.
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