09 Dez 2016 | domtotal.com

Soft Sexy Priest

Culpa religiosa em ser sexy: fotos sensuais e ensinamentos do Senhor podem combinar?

Tom Zé apresenta 'Canções eróticas de ninar'.
Tom Zé apresenta 'Canções eróticas de ninar'.

Por Gilmar Pereira

Numa tradução livre, padre suavemente sexy. E não, não falo aqui do Fábio de Melo. Ele se tornou para muitos o padre galã. Praticando exercícios regulares e se vestindo com roupas legais, o padre cantor não é o perfil do soft sexy priest (SSP). Ele não mascara o cuidado para consigo ou o fato de gostar de estar bonito. Nunca vi uma entrevista sua em que quisesse fingir algo com isso. No muito se limita a falar que lida bem com o assédio e ponto.

O SSP tem algo que o caracteriza: a culpa. Conheço muitos religiosos e, algo que noto com frequência, muitos deles têm problema em gostar da própria aparência e se perceberem desejáveis, o que aparece muito nitidamente em suas redes sociais. O que eles fazem? Colocam fotos em que estão com posturas, olhares ou roupas que os deixam atraentes e estão felizes com o resultado. Contudo, a culpa os corrói. Serão julgados porque não estão transparecendo a santidade que esperam dele. Como sinais de Deus podem ter algo de sexy? Então, a única coisa a se fazer é colocar como legenda uma frase cristã. O resultado são músculos em evidência e “O Senhor é o pastor que me conduz, não me falta coisa alguma”.

Mas isso não é privilégio do SSP. Há o soft sexy boy ou girl que, do mesmo modo, sente culpa pela própria exibição. Exibir-se pode consistir num transbordar de satisfação para consigo. Não é algo ruim necessariamente. Contudo, parece que devemos sempre ter uma consideração pesarosa sobre nós, negar elogios ou achar que aquilo que fazemos não é tão bom assim. Um exemplo de tal personalidade está no TumblrChicas Xavier”, cujo lema é “A sensível arte de combinar fotos sensuais e lições de vida”. Nessa página da internet, há exemplos de quem não quer aparecer apenas sexualmente interessante, mas mostrar que tem também muito conteúdo intelectual.

O caso do padre tem um agravante que é o imaginário que se criou sobre a santidade e sobre o sexo. Um padre não pode ser atrativo sexualmente porque é um homem de Deus. Logo, o sexo não é algo digno, talvez sujo. E esse é o problema. Nas Igrejas de rito oriental, como a Ortodoxa, homens casados podem se tornar padres. Ou seja, a dimensão genital do sexo não corrompe sua imagem para suas comunidades. Sexo e santidade não são opostos. Mas no ocidente há uma forte influência maniqueísta que parece querer se ver sem carne. Daí uma esquizofrenia em que o corpo pede lugar, quer ser visto, clama por atenção, mas que deve ser coberto de pureza infantil. Um padre, caso tonifique o corpo na academia, deve dizer que faz isso por saúde porque não pode ter vaidade. Será? Será que não pode olhar para si e gostar do que vê? Será que não pode ter prazer?

O problema é que temos cultivado um imaginário sobre a corporeidade e sobre o sexo de modo doentio. Mesmo os que não têm relação alguma com Igreja, quando se assustam e perguntam “Mas padre pode isso?” levam consigo uma imagem de pureza que não é humana. Pureza não deveria ser lida na ideia de algo imaculado. Ao contrário, algo puro deveria ser intendido como algo integral. Daí é fácil assimilar aquilo que socialmente não é aceito, basta considerar que é uma dimensão humana e, na inteireza da pessoa, faz parte dela. Libertem os corpos.

Canções eróticas de ninar

Há tanta repressão em torno do sexo que, ao se tratar do tema, há sempre quem ria ou que se revolte indignado pela “pouca senvergonhice”. O processo de libertação começa pela fala, como diria a poeta Ana C., “angústia é fala entupida”. Nesse sentido, Tom Zé solta o verbo no álbum “Canções Eróticas de Ninar”, que irá apresentar em show homônimo no Sesc Palladium, conforme ele próprio diz:

“Aqui, os assuntos do sexo como eram tratados (ou não) na minha infância e juventude. A sabedoria popular, a intuição aguda do mundo folclórico, que, com a Urgência Didática, criaram uma escola em volta de nós, salvaram aquela geração, evitando que chegássemos à idade adulta ignorantes quanto à sexualidade. Com aqueles sobre quem a proibição pesa mais fortemente é que explodem os textos e reações mais veementes. É o caso de Carmina Burana, texto que veio de um convento na Idade Média. E foi assim que nasceu a letra de Dedo: eu era criança e escutava as meninas, em outra sala, brincando de fazer rimas eróticas”.

A experiência do show promete ser libertadora.

Tom Zé – Canções eróticas de ninar

Dia 10/12, sábado, 21h, no Sesc Palladium (Rua Rio de Janeiro, 1.046 e Av. Augusto de Lima, 420, no Centro de Belo Horizonte).

Ingressos de 12,00 (comerciário) até 50,00 (inteiro Plateia I) pelo site ingresso.com
 

Gilmar Pereira
Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, graduado em Filosofia pelo CES-JF e em Teologia pela FAJE. Apaixonado por arte, cultura, filosofia, religião, psicologia, comunicação, ciências sociais... enfim, um "cara de humanas". Escreve às sextas-feiras.
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