16 Dez 2016 | domtotal.com

Nem X, nem Y. Geração Peter Pan.

Temos uma grande geração ultradependente, não só financeira, mas afetivamente, incapaz de assumir a responsabilidade sobre si.

Obra
Obra "De bruços" de Patrícia Piccinini (Cultural Banco do Brasil)

Por Gilmar Pereira

Faz algum tempo que escuto que a adolescência tem terminado mais tardiamente. Não posso falar categoricamente que isso é verdade, mas vale considerar que há um fenômeno em curso, o de adultos que não crescem. Se outrora o fato de um jovem de 18 anos abandonar o seio do lar e constituir sua própria família foi comum e normal, já que atingira a maturidade, hoje é cada vez mais raro, além de ser justificado por vozes que lhe dizem ser ainda “apenas uma criança”.

Aliás, “outrora” é palavra velha. Usar num texto jornalístico virou pecado porque o apelo da cultura atual é o da urgência do novo e do informal, ligado à ideia de juventude. Veja bem o que está acontecendo! Há uma construção do que seja juventude e ela é bem recente. Definida, essa noção do que é ser jovem se torna modelo e paradigma. Vamos por partes. Pegue o exemplo do vestuário.  Este não era muito diferente nas distintas etapas da vida. Observando-o em novelas e filmes de época, pode-se notar que a única diferença era que, ao menino, facultava-se o uso de bermudas no dia-a-dia. Outro exemplo é o da linguagem, também tomada antigamente no seu padrão adulto como mais bonita. Mesmo o rito do baile de 15 anos ou talvez a menarca datavam o salto da menina para moça, já considerada como capaz de ser mãe, sem levar em conta a adolescência como transição tênue.

A educação do passado preparava o indivíduo para assumir responsabilidades e estas já eram exigidas na infância, principalmente a dos mais pobres que deveriam cuidar dos irmãos menores, ajudar no trabalho do campo, etc. Quantas meninas não começaram como domésticas aos10 anos de idade? Converse com idosas que vieram da (e as vezes ainda estão na) pobreza. Considere também que muitas delas vinham do interior e colocadas para trabalhar em “casas de família” pelos seus pais a fim de lhes ajudar financeiramente, tendo a infância roubada. Muitas eram até assediadas ou mesmo estupradas por patrões ou algum de seus filhos já maiores.

Talvez a dureza, a repressão, a ausência do frescor juvenil tenham feito com que um levante ocorresse no final da década de 60. Contudo, tal movimento logo foi captado pelo mercado e vendido como produto. Se num primeiro momento a juventude rompe com a dureza e protesta, quebrando o status quo, logo sua “rebeldia” é captada pelo mercado que passa a vender uma ideia sobre ela. As propagandas de roupa, como as da jovem-guarda, usavam de linguajar informal e muitas cores porque isto era ser jovem: nada sisudo como o universo adulto. Logo a juventude passou a ser cultuada como referência e padrão social.

Então, a roupa que marcava a identidade juvenil passou a ser usada também pelos adultos porque na juventude é que estaria a beleza. A evolução de tal valor faz culminar nos dias de hoje, quando se chama alguém de senhor ou senhora, e se costuma ouvir como resposta que “o Senhor está no céu”. Todos querem ser informais, mais diretos, sem se preocupar com padrões e protocolos, incorporando uma estética dita juvenil. E como não há mais distinção de fazes de desenvolvimento, todo mundo é jovem. O perverso dessa dissolução é que não há políticas públicas para juventude nem respeito aos idosos.

Uma das coisas que marca o adulto é a capacidade de solidão, de viver só, de assumir-se na existência.  Temos uma grande geração ultradependente, não só financeira, mas afetivamente, que é incapaz de sair de casa por não dar conta de assumir a responsabilidade sobre si. Uma geração que lida com a realidade como se tudo fosse uma disputa ou jogo e que faz guerra entre coxinhas e petralhas, sem notar que há corrupção em toda parte. Uma geração que se fantasia de Batman e Power Rangers para protestar atrás de um pato de borracha gigante ou com camisa da seleção. Sério! Olhe a infantilização a que chegamos! Não vou nem questionar posição política, apenas a fantasia que as coisas se tornaram, ou seja, uma dificuldade em lidar com a realidade enfeitada com ícones infanto-juvenis. Não é à toa que ser geek está na moda e Marvel e DC têm vendido diversos produtos atingindo cifras estratosféricas. Agora é cool gostar de super-heróis, sendo que pouco tempo atrás era vergonhoso ser tido como “nerd”.

Qual a última consequência? Na efervescência do informal ligado à estética juvenil, uma nova geração jovem busca ser conservadora e rígida (na direita e na esquerda). O excesso da irreverência em suposta linguagem jovem, que cria perfis no facebook como o da “Prefs de Curitiba” ou que faz humor com a morte como a página do “Cemitério da Ressurreição”, são sintomas de uma sociedade que tem dificuldade de crescer. Se insistirmos nessa história de Peter Pan, a evolução do mundo estará na Terra do Nunca.

ComCiência

A crise do presente faz com que a imaginação crie futuros distópicos . Outras vezes, a utopia ressurge e deseja um mundo mais evoluído, mais avançado, e coloca a expectativa de um porvir em que a ciência ajudará a humanidade a ser melhor. Ambos os sonhos revelam a inconformidade com o presente.  Como o mal-estar do pós-guerra culminou numa mudança de mentalidade em maio de 68 com a juventude, a crise da cultura espera gerar algo novo. Por hora, a espera dessa realidade traz um misto de estranhamento e encantamento pelo que virá.

Talvez esse misto de utopia e distopia seja aquilo que está presente na obra de Patricia Piccinini, ComCiência, exposta no Centro Cultural Banco do Brasil. Para trazer a questão das mutações genéticas para o território da arte, a artista australiana se utiliza do realismo como linguagem, apresentando ao espectador um universo de criaturas desconhecidas, porém palpáveis e surpreendentemente afetuosas. ComCiência, um neologismo que carrega sentido duplo, conectando consciente e ciência, propõe ao público um percurso narrativo entre esculturas, desenhos, fotografias e vídeos. A artista, em entrevista ao jornal Pampulha diz: “Acho que o mundo nunca é completamente doce ou feio, e quero que meu trabalho reflita essa verdade. Além disso, gosto de colocar as pessoas em uma jornada que vai da repulsa até a aceitação”. Tudo faz pensar no futuro que teremos.

Desde o dia 12 de Outubro, a mostra ficará em cartaz até o dia 09 de Janeiro.

O CCBB funciona de quarta a segunda das 9h às 21 horas, na Praça da Liberdade, 450, Funcionários – Belo Horizonte.

Gilmar Pereira
Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, graduado em Filosofia pelo CES-JF e em Teologia pela FAJE. Apaixonado por arte, cultura, filosofia, religião, psicologia, comunicação, ciências sociais... enfim, um "cara de humanas". Escreve às sextas-feiras.
Comentários
+ Artigos
Instituições Conveniadas