18 Dez 2016 | domtotal.com

Sei exatamente como você se sente


Por Nany Mata

Era por volta de onze da noite, eu acabava de chegar a mais um janeiro chuvoso em Belo Horizonte. Voltava de uma viagem de férias com a família e de uma quinzena de dias desconectada das redes. Lembro que entrei no MSN para matar um pouco das saudades dos que estavam longe. Uma prima perguntou se eu estava bem e respondi prontamente que estava ótima. Afinal, acabara de voltar de uma temporada morando nos Estados Unidos e em duas semanas já tinha visitado vários amigos e familiares. Estava animada para um 2006 que tinha só começado.

- Não pode ser – ela disse.

- E por que não? Aconteceu alguma coisa? – perguntei já não tão animada, enquanto falava para minha irmã que algo ruim deveria ter rolado.

- Não vou te contar por aqui, te ligo.

  Meu coração acelerou. Sou do tipo de pessoa que não se desespera diante de quase nenhuma situação, mas deu para sentir nas poucas palavras enviadas que o que ela tinha para me contar não seria fácil de ouvir. Nos cinco minutos seguintes, até o telefone tocar, pensei coisas terríveis. A espera é inimiga da calma.

- Então, parece que você ainda não sabe, mas aconteceu uma coisa muito ruim. Não sei direito os detalhes, mas seu pai sofreu um acidente muito grave.

- E como ele está?

Silêncio. Lembro que não acreditei. Liguei no celular dele e nada, tentei a chefe dele que, já em lágrimas, me confirmou o que eu mesma negava dentro de mim. Daquele minuto pelas horas seguintes, as lembranças são confusas. Eu nunca tinha perdido ninguém para a morte e não conseguia pensar direito.

Meu estômago embrulhava e uma vontade de chorar invadia meu corpo, mas contraditoriamente, as lágrimas não caiam porque eu não acreditava que aquilo tinha acontecido. Afinal, as pessoas que a gente ama não podem ir embora. Uma sequência de boas lembranças começou a passar na minha mente, como uma retrospectiva que a TV exibe a cada final de ano.

Você já perdeu alguém que ama? Foi a pior sensação que passei na vida e veio com muita força. O sentimento era de que nada poderia ser pior do que aquela dor. Nas noites seguintes, a insônia tomava conta de mim e, em pesadelos, eu me via com ele, no carro, na hora em que tudo aconteceu.

"Mas, por que está contando essa história tanto tempo depois?", você deve estar se perguntando. Porque decidi fazer um exercício sobre empatia. Fazer com que você se colocasse em meu lugar. Não que isso seja importante para mim, mas talvez porque - por preconceito - seja mais fácil para você colocar-se no meu lugar do que no de outras pessoas.

Tati Quebra Barraco perdeu um filho. Não sou mãe, mas elas costumam dizer que a morte de um filho é infinitamente mais doída que a de qualquer outro ente querido. Não consigo imaginar tamanha dor. Todos os dias, centenas de jovens, como Yuri, morrem vítimas da violência. Alguns deles, dentro dos presídios. Acontece que a ficha criminal dessas pessoas não é gatilho e quem desconhece suas histórias não é juiz.

Meu pai, seu irmão, a mãe dele são vidas e têm o mesmo valor e ninguém tem o direito de ser hostilizado após uma perda. 

Nany Mata
Jornalista, especialista em Gestão Estratégica em Comunicação, ambos pela PUC Minas. Trabalhou e é voluntária da Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (Apac), entidade sem fins lucrativos que visa a humanização no cumprimento da pena e a ressocialização de indivíduos que cometeram delitos. Como funcionária da entidade, tornou-se também voluntária e entusiasta dos Direitos Humanos. Atualmente é assessora de imprensa, tem ainda experiência como community manager, social media e reportagem.
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