22 Dez 2016 | domtotal.com

Paz e bem ao outro


É preciso retomar o preceito Cristão de colocar-se no lugar do outro.
É preciso retomar o preceito Cristão de colocar-se no lugar do outro.

Por Wagner Dias Ferreira

O advogado quando inicia seu expediente no escritório fica a disposição de todo tipo de intervenção para o trabalho. Clientes pretendendo simples orientação, clientes necessitando atendimento de urgência. Advogados adversários pleiteando acordo para finalizar procedimentos em andamento. E por vezes solicitações do próprio poder judiciário para que o advogado patrocine causas como “dativo” nomeado pelo juiz, normalmente em situações nas quais a Defensoria Pública fica impedida.
 
Há o caso em que numa dessas situações o advogado foi convocado pela justiça para atuar em um mutirão de júri, num processo do tipo “causa perdida” apenas para se afirmar que houve defesa.
 
Um cidadão sem família desde os 14 anos e que precisou ganhar a vida com esforços próprios, tendo chegado a cidade grande deparou-se em um bar com cidadão muito brincalhão que propôs ao jovem um apelido que não foi bem aceito. Esta situação redundou em acusação de homicídio, pela reação contra ao apelido proposto.
 
Ouvido na polícia o jovem do interior, sem família, admitiu a conduta, como uma obrigação moral, tanto o ato violento praticado como a admissão da verdade, eram imperativos segundo os códigos de consciência desta pessoa.
 
Em defesa o advogado das causas perdidas esforçou-se para mostrar aos jurados a realidade de vida que tinha conduzido o jovem aquele momento extremo e como do ponto de vista de sua cultura do interior, com uma moral completamente diferente do mundo urbano contemporâneo e tecnológico, ele estava obrigado a agir daquela forma, sem levar desaforo para casa. Sendo, para ele, desaforo o apelido proposto.
 
Infrutífero. O julgamento fora feito no ambiente social urbano contemporâneo. E naquele dia os jurados não estavam dispostos a se colocar no lugar do outro, para compreender seu ponto de vista.
 
Há no direito contemporâneo a possibilidade de que a conduta daquele jovem do interior que pela cultura bruta do lugar onde cresceu não lhe permitia internalizar a norma jurídica proibitiva, o que permite pensar em uma atenuação de sua pena.
 
Estando em época muito próxima do Natal e da passagem de um ano para outro, que são tempos de festas e de reflexão, e planos para o futuro, as linhas gerais desse caso que foi aqui superficialmente mencionado permitem a convocação de princípios cristãos, para aquela atitude de se posicionar no lugar do outro.
 
Naquela ocasião em que a horda de populares iria apedrejar, em nome da Lei e em cumprimento a esta, uma pobre mulher adultera, o que Jesus propôs ao povo foi que se colocassem no lugar da mulher. “Quem não tem pecado que atire a primeira pedra.”
 
A mulher tinha pecado. Colocar-se no lugar dela era a proposta de Jesus. Posicionando-se no lugar do outro, para ver o mundo contemporâneo com os seus olhos, foi natural que a horda de populares atenuasse seus ânimos.
 
No caso do jovem do interior com o da cidade que foi referido acima ninguém se pôs primeiro no lugar do outro, o que teria evitado o apelido e também a fatalidade na reação.
 
Nos dias de hoje o que se precisa muito para reduzir a encolerização das relações humanas é colocar-se no lugar do outro. Lembrem que desapareceram as brigas e rixas. Agora toda e qualquer discussão redunda necessariamente em homicídios, e não do tipo simples, que deixou de existir para o Ministério Publico, mas do qualificado. A uma porque as armas de fogo inundam a sociedade, a duas porque ninguém se coloca no lugar do outro. 
 
È preciso retomar o preceito Cristão de colocar-se no lugar do outro. Para desta forma atenuar o julgamento que fazemos das pessoas e assim diminuirmos os conflitos e as fatalidades nas relações humanas. Boa hora pra pensar nisso e planejar algo com alguém em particular nesta direção.

Wagner Dias Ferreira
Advogado e membro da Comissão de Direitos Humanos da OAB/MG
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