07 Jan 2017 | domtotal.com

Todo ser humano é um rei mago

O sentido das celebrações populares do Natal e Reis Magos é revigorar a busca por apreender e viver o mistério da vida no mais profundo de cada crente.

Foliões levam a bandeira do Menino de casa em casa
Foliões levam a bandeira do Menino de casa em casa

Por Marcelo Barros

Nesse começo do ano, em todo o Brasil, principalmente nos ambientes rurais e do interior, as comunidades mais pobres vibram com danças populares que unem a fé e a cultura popular. Essa sabedoria nos ensina que Deus gosta de brincadeira e se manifesta no jeito do povo simples cantar suas rezas, dançar e brincar nas folias de Reis, assim como, no Nordeste, as crianças ensaiam e dançam o pastoril e o reizado. Inspiradas, sem dúvida em dramatizações religiosas, comuns na Idade Média, em um contexto no qual a Liturgia era em latim e restrita ao clero e religiosos/as, as folias de reis encenam a peregrinação que, conforme o evangelho, magos, ou seja feiticeiros e sacerdotes de religiões pagãs, fizeram do Oriente até Belém para adorar a Jesus. Pelo interior de Goiás, Minas Gerais e outras regiões do Brasil tradicional, do Natal até 06 de janeiro, os foliões levam a bandeira do Menino de casa em casa e invocam a benção divina para as famílias.

É importante não julgar essas tradições como meros resquícios de um tempo passado e de culturas rurais inadequadas no contexto urbano. Ao contrário, o sentido mais profundo dessa piedade popular se mantém vivo e atual. De fato, para as comunidades cristãs que seguem essas tradições pouco importa se a página do evangelho que conta a visita dos sábios do Oriente ao menino de Belém é de tipo simbólico. Os próprios magos não são figuras históricas, mas a tradição os tornou reis magos e fez da viagem deles, conduzidos por uma estrela, do Oriente até Belém o protótipo de toda a busca interior e profunda que as pessoas vivem.

Mesmo em um mundo sem sonhos e que se especializa em matar as utopias mais profundas da humanidade, pessoas pertencentes a todas as tradições espirituais, como também intelectuais de todas as culturas, mesmo se não pertencem a nenhuma religião específica vivem uma verdadeira peregrinação interior na busca de apreender e viver o mistério mais profundo da vida. A luta cotidiana pela existência e a agitação da sociedade atual tenta as pessoas a esquecer ou mitigar essa busca. O sentido mais profundo das celebrações populares do Natal e Reis Magos é revigorar essa procura no mais profundo de cada crente.

As devoções populares natalinas nos fazem reviver a busca que os evangelhos simbolizam ao contar a visita daqueles astrólogos do Oriente a Jesus. Hoje, os reis magos somos nós e todas as pessoas que não desistem da busca interior e se dispõem a aprofundar o  diálogo na escuta e no aprendizado uns com os outros.

Nos nossos dias, o papa Francisco tem insistido em que a fé cristã se vive na inserção no mundo atual, na solidariedade a todos os grandes problemas da humanidade. A missão de quem é de Deus é fazer como Jesus: criar pontes e não muros. Nós fazemos isso quando aceitamos nos despojar de nossa autossuficiência e nos inserir na comunidade humana e na comunhão de todos os seres vivos. Para retomarmos essa busca interior e nos abrir ao diálogo com todos os irmãos e irmãs que se colocam conosco nessa estrada, o Natal nos convida a começar de novo e aceitar ser como crianças abertas ao amanhã. Adélia Prado, nossa grande poetisa, tem um poema-oração que diz assim: "Meu Deus, me dá cinco anos. Meu Deus, me dá a mão e me cura de ser grande".

Marcelo Barros
Marcelo Barros é monge beneditino e teólogo especializado em Bíblia. Atualmente, é coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). Assessora as comunidades eclesiais de base e movimentos sociais como o Movimento de Trabalhadores sem Terra (MST). Tem 45 livros publicados dos quais está no prelo: "O Evangelho e a Instituição", Ed. Paulus, 2014. Colabora com várias revistas teológicas do Brasil, como REB, Diálogo, Convergência e outras. Colabora com revistas internacionais de teologia, como Concilium e Voices e com revistas italianas como En diálogo e Missione Oggi. Escreve mensalmente para um jornal de Madrid (Alandar) e semanalmente para jornais brasileiros (O Popular de Goiânia e Jornal do Commercio de Recife, além de um jornal de Caracas (Correo del Orinoco) e de San Juan de Puerto Rico (Claridad).
Comentários
+ Artigos