08 Jan 2017 | domtotal.com

Reféns do senso comum

Bem vindos a uma sociedade que se cala diante da realidade e celebra, cega, o errado.

Por Nany Mata

"Não tenho medo de morrer ou ficar preso, na verdade já estou preso na angustia da injustiça, além do que eu preso, vou ter 3 alimentações completas, banho de sol, salário, não precisarei acordar cedo para ir trabalhar, vou ter representantes dos direitos humanos puxando meu saco, também não vou perder 5 meses do meu salário em impostos", escreveu Sidnei Ramis de Araújo, que matou a ex-mulher, o filho e mais 10 pessoas a tiros durante o réveillon em Campinas. Em um crime que, entre diversos aspectos, mostrou uma mentalidade machista, doentia e, em especial no trecho acima, cegada pelo senso comum.

Se tivesse vivo, Araújo iria enfrentar uma realidade bem diferente do que ele mesmo acreditava existir. Longe de receber três refeições diárias, nem sempre com banho de sol e, jamais, com salário. Isso é uma m* de mito sobre o auxílio pago às famílias de quem está privado de liberdade. Também não teria os colegas dos Direitos Humanos puxando saco, porque essas pessoas não "puxam saco" de malandro ou fica do lado de bandido. A gente luta – ou tenta – que mesmo após cometer crimes, seja possível ter alguma dignidade humana, como manda a constituição.

A realidade lá dentro dos presídios é bem diferente dessa conversinha repetitiva aqui de fora de que "preso custa mais que trabalhador honesto". Não venha com essa, não fale sobre o que desconhece. O sistema penitenciário brasileiro está falido e a população "honesta" não quer nem saber porque não interessa se um membro do PCC foi decapitado e esquartejado. Aliás, quando explode na sua cara a vida real, como uma bomba que mostra a indiferença dos governantes, você tem a capacidade de dizer que cada um daqueles 56 detentos mortos no Complexo Penitenciária Anísio Jobim (Compaj), em Manaus mereceu.

Sim, foi comprovado que cada um desses presos custava ao Governo quase R$ 6 mil reais, mas esse dinheiro não era gasto em refeições, alojamento, saúde ou alternativas educacionais para reinserção deles, ao contrário, está nas mãos de pessoas que nada fizeram diante dessa bomba relógio, porque bandido não merece boas condições e corrupção não parece ser crime este país. Quem são os bandidos, senhores?

Quem luta por igualdade e melhores condições está cansado de ser malvisto, enquanto os vilões de verdade desviam verbas por aí. E se você, assim como o atirador lá de Campinas, prefere acreditar que o injustiçado diante dos presos é o trabalhador honesto, sinto te informar que você está enganado. A justiça não tem sido feita a mim, como assalariada, tampouco ao detento que vive em condições subumanas. Não é assim que funciona. Enquanto verbas são desviadas daqui e dali, não há justiça a nenhum de nós. Não seja tolo, como o senhor Sidnei foi, de tornar o mundo ainda mais injusto ao se posicionar como vítima.

Nany Mata
Jornalista, especialista em Gestão Estratégica em Comunicação, ambos pela PUC Minas. Trabalhou e é voluntária da Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (Apac), entidade sem fins lucrativos que visa a humanização no cumprimento da pena e a ressocialização de indivíduos que cometeram delitos. Como funcionária da entidade, tornou-se também voluntária e entusiasta dos Direitos Humanos. Atualmente é assessora de imprensa, tem ainda experiência como community manager, social media e reportagem.
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