11 Jan 2017 | domtotal.com

Os humanos controlados pela tela, ou Black Mirror


Por Charles Mascarenhas

Você já se imaginou vivendo em um mundo, no qual as tecnologias determinam absolutamente tudo sobre sua vida? Talvez não seja necessário se imaginar nessa situação hipotética, talvez essa situação já exista e você viva nela.

O britânico Charlie Brooker criou em 2011, no Reino Unido a série Black Mirror, que é uma representação fictícia e pouco exagerada da sociedade contemporânea e as conseqüências que a constante evolução tecnológica pode gerar na vida das pessoas. O foco é principalmente na grande atenção que os meios de comunicação têm recebido. Por isso o nome Black Mirror, que significa espelho negro, que é a tela preta que está em todos os lugares, seja fixada na parede da sala, na palma da mão, em cima da mesa, sempre próxima aos nossos olhos. Black Mirror são os celulares, televisores e computadores quando desligados. 

A série, que agora passa a ser produzida e exibida pela Netflix é dividida em três curtas temporadas. Cada temporada tem cerca de 3 a 6 episódios, cada um dura aproximadamente 50 minutos. Os episódios e as temporadas podem ser vistos de maneira desordenada, pois as histórias são independentes. Entretanto, cada capítulo deve ser bem digerido antes de passar para o próximo. Eles são pesados! 

Black Mirror não é uma série de terror, a sensação que se tem ao assistir é de angústia, pois tudo que acontece não está longe de nossa realidade, parece que seremos (ou já somos) a próxima vítima dos nossos próprios aparelhos tecnológicos.
Para se ter noção do quão chocante/impactante são os episódios, citarei três deles, um de cada temporada. A última foi lançada em dezembro de 2016.

The National Anthem é o primeiro episódio da primeira temporada e um dos mais perturbadores. A trama está relacionada ao modo como as redes sociais são utilizadas. O ator inglês, Rory Kinnear, interpreta o papel de um primeiro- ministro da corte inglesa, de nome Michael Callow, que para honrar seu respeito à família real, precisa salvar a vida da princesa Susannah (Lydia Wilson), que foi sequestrada.

Por meio do Youtube um vídeo da princesa chorando, pedindo resgate é postado. Em poucos minutos milhões de pessoas tem acesso ao vídeo e o assunto se torna o mais comentado da rede social, o Twitter. Mas, o que mais chama a atenção das pessoas que acompanham ao caso do seqüestro é a exigência dos sequestradores. Eles determinam que para a libertação de Susannah, o primeiro-ministro tenha relações sexuais com um porco e que a cena seja televisionada para todo o mundo.

A discussão na internet gira em torno do dilema: ele deve ou não se submeter às exigências dos criminosos, que querem na verdade a espetacularização.

Não há como não se envolver com esse episódio. Assim como todos os personagens da ficção nos tornamos plateia e queremos entretenimento, por mais que sintamos repulsa.

White Bear é o segundo episódio da segunda temporada e também está relacionado à espetacularização da vida através das próprias câmeras do celular.

Neste episódio conhecemos Victória (Lenora Crichlow), uma mulher que ao sair de casa, totalmente desnorteada, pedindo ajuda, é surpreendida, pois todos os moradores da cidade parecem estar extasiados e só conseguem apontar suas câmeras celulares, filmando-a. A exceção é um grupo de pessoas mascaradas e armadas tentando matá-la.

Assim como Victória, a princípio o expectador fica sem entender por qual razão as pessoas a perseguem, mas a trama vai se revelando e o final é surpreendente.

Finalmente, Nosedive, primeiro episódio da terceira temporada. Este talvez seja o que mais se aproxima da nossa realidade, pois demonstra exatamente como lidamos dentro das redes sociais. Estamos constantemente avaliando e sendo avaliados pelo grande júri: a internet.

Em Nosedive, vida real e rede social da internet não se distinguem. As pessoas necessitam postar o que estão comendo, o que estão fazendo e precisam que todos notem o quanto elas são/estão felizes.

Lacie (Bryce Dallas Howard), protagonista, tem a vida resumida em trabalhar e avaliar (e ser avaliada), numa escala de 0 a 5 estrelas o comportamento das pessoas que a cercam. As médias das constantes avaliações servem para dar um status social. Quanto mais baixo o número de estrelas, menos possibilidades se têm na vida profissional e pessoal.

Para obter um número acima de 4 estrelas é preciso forçar sorrisos. Pois ser simpático é fundamental para manter-se na classe atual ou subir para outro patamar.

Não há dúvidas já que vivemos numa sociedade do espetáculo. Black Mirror provoca uma crise de consciência em cada pessoa, pois mostra os riscos e conseqüências causadas pelas superexposições voluntárias e involuntárias na mídia e redes sociais, por meio das novas tecnologias.

Nesse caso é assustador como a arte parece fazer uma profecia da realidade que parece estar por vir.

Clique aqui e confira o trailer!

Charles Mascarenhas
Charles Mascarenhas é estudante de Comunicação Social em Cinema pela Puc-Minas, onde tem se dedicado à pesquisa sobre cinema.
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