12 Jan 2017 | domtotal.com

No país dos absurdos

Diante de tantos absurdos, vale lembrar Nelson Rodrigues: “o que nos falta é o que chamaria de ‘espanto político’.

De pai para filho, a roda dos poderosos segue esmagando os sonhos do povo.
De pai para filho, a roda dos poderosos segue esmagando os sonhos do povo. (Reprodução)

Por Jorge Fernando dos Santos

Tom Jobim dizia que o Brasil é um país chuvoso e hereditário, de cabeça para baixo, e que a única saída é o Galeão. Ironicamente, rebatizaram o aeroporto com seu nome. Mais que um gênio da raça, o maestro soberano podia ter sido filósofo. Afinal, conseguiu definir o país em poucas palavras – e sem perder o bom humor.

Desde o tempo das capitanias hereditárias, o poder econômico tem sido exercido praticamente pelas mesmas oligarquias. De geração em geração, famílias abastadas, descendentes de piratas e donos de escravos, acumulam a maior parte da riqueza nacional. Não satisfeitas, manipulam partidos, sonegam impostos, evadem divisas e exploram os miseráveis.

De pai para filho, a roda dos poderosos segue esmagando os sonhos do povo, que só é lembrado nas eleições. Iludido pelas promessas de campanha, o eleitorado legitima nas urnas a incompetência e a corrupção. As escolhas (se é que temos alguma) estão cada vez piores.

Vejamos, por exemplo, as eleições municipais do ano passado. Justamente no momento em que a Justiça começa a punir políticos e empresários condenados por corrupção, prefeituras e câmaras de vereadores são entregues de bandeja a políticos no mínimo aventureiros ou desonestos.
 
O errado e o certo
 
A fauna dos eleitos é bem variada, incluindo contraventores, traficantes, milicianos, devedores de impostos, gente condenada por corrupção e evasão de divisas. Alguns interromperam a estadia na prisão para assinar o termo de posse. Como assim, se ninguém consegue emprego sem apresentar folha corrida? Pois é, “no Brasil, o errado é que é o certo” – dizia mestre Cafunga.

E a coisa não para por aí. Ao cassar a presidente da República devido às pedaladas fiscais (que deram ao país R$ 41 bilhões de prejuízo), os senadores resolveram não suspender seus direitos políticos. Além de fatiar a norma estabelecida pela Constituição Federal, essa decisão nos leva a questionar se houve algum acordo nos bastidores.

O impeachment da presidente incluiria oito anos de inelegibilidade, como ocorreu com Fernando Collor. No caso Dilma, talvez o absurdo praticado explique a foto na qual ela aparece conversando descontraidamente com adversários, no intervalo da votação que a derrubou. Estranho, não é?

Vejamos também o caso de Michel Temer, que era vice e virou titular. Assim que recebeu a faixa presidencial, empossou um ministério cheio de investigados pela Lava-Jato. Aliás, ele mesmo teria sido citado nas delações premiadas. Não bastasse isso, mantém na pasta da Justiça um ex-advogado do PCC, a maior organização criminosa do país. Como cantou Julinho da Adelaide (leia-se Chico Buarque), “chama o ladrão, chama o ladrão”.
 
Espanto político
 
E o que dizer do famoso japonês da Federal, condenado por envolvimento no contrabando? Mesmo usando tornozeleira eletrônica, ele continuou recepcionando a turma da Lava-Jato na chegada ao presídio. Por que, diabos, não o colocaram nos serviços internos, livrando a PF de tal constrangimento?

Enquanto isso, o Supremo Tribunal Federal decide que o investigado Renan Calheiros pode continuar presidindo o Senado sem, no entanto, ficar na linha sucessória da Presidência da República. Ao que parece, os magistrados se curvaram às pressões, permitindo assim a ingerência de poderes.

No Norte do país, a guerra de facções criminosas resulta na morte de dezenas de detentos. E agora dizem que o Estado falido terá que indenizar as famílias das vítimas em cerca de 90 mil reais cada uma. Em vez de reformar o sistema prisional, o governo anuncia a construção de mais dois presídios na região – como se isso resolvesse o problema.

Diante de tantos absurdos, vale lembrar Nelson Rodrigues: “o que nos falta é o que chamaria de ‘espanto político’. Aqui, as coisas espantosas deixaram de espantar”... E olha que ele escreveu isso há décadas! Por essas e outras, acho que vou comprar uma passagem só de ida, partindo do Aeroporto Tom Jobim, direto pra Pasárgada.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 43 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual Editora), Prêmio Guimarães Rosa em 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ em 2003; Alguém tem que ficar no gol (Edições SM), finalista do Prêmio Jabuti em 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração Editorial), finalista do Prêmio da APCA em 2015.
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