16 Fev 2017 | domtotal.com

O Brasil bate na nossa porta

Para compreender o país, precisamos não levar tão a sério as ideologias importadas.

O país no qual acreditávamos viver era só uma ilusão
O país no qual acreditávamos viver era só uma ilusão (Reprodução)

Por Jorge Fernando dos Santos

“O Brazil não conhece o Brasil”. A frase de Aldir Blanc no samba “Querelas do Brasil” – feito em parceria com Maurício Tapajós – nunca se mostrou tão atual. Ao contrário da famosa “Aquarela do Brasil”, samba exaltação de Ary Barroso, o país está longe de ser um paraíso tropical.

O esquema de corrupção investigado pela Operação Lava Jato, a crise econômica, o aumento do desemprego e o avanço da violência desmascaram o país do carnaval tantas vezes alardeado pelos ufanistas. O Brasil real nunca se livrou dos vícios do Império, e a República não passou de um golpe de estado.

Para compreender o país, precisamos não levar tão a sério as ideologias importadas. Não somos aquilo que esquerdistas e liberais pretendem que sejamos. O que temos aqui é uma alarmante promiscuidade entre o público e o privado: o capital se mostra incapaz de sobreviver sem as benesses do estado do qual se apropriou, resultando disso a falência do próprio estado.

No livro “Raízes do Brasil”, Sérgio Buarque de Holanda afirma que “a democracia no Brasil foi sempre um lamentável mal-entendido. Uma aristocracia rural e semifeudal importou-a e tratou de acomodá-la, onde fosse possível, ao seus direitos ou privilégios, os mesmos privilégios que tinham sido, no Velho Mundo, o alvo da luta da burguesia contra os aristocratas”.
 
Herança maldita
 
Segundo o autor, a colonização do Brasil foi diferente de tudo o que ocorreu nas Américas. Os portugueses que aqui chegaram já haviam se miscigenado com negros e mouros no seu país de origem. No entanto, negros e índios foram explorados à exaustão por um colonizador preguiçoso e ignorante, dado à aventura marítima, mas saudoso de sua terra natal. Para subjulgar os colonizados, procurou mantê-los na ignorância.

Em meados do século XVI, países da América Hispânica já tinham jornais, editoras e universidades. Aqui, pelo contrário, o progresso intelectual seria permito somente após o desembarque da família real no Rio de Janeiro, em 1808. Por outro lado, esse fato também reforçaria a burocracia, a corrupção e o compadrio.

No século XX, o ufanismo dos períodos ditatoriais maquiou a realidade, criando a falsa sensação de que vivíamos num país em pleno desenvolvimento. O que hoje assistimos em vários setores, incluindo a quase falência institucional, resulta do desconhecimento quanto a nós mesmos.

Com a industrialização desordenada, a dura realidade dos sertões se transferiu para as grandes cidades e os problemas sociais se avolumaram sem que nos déssemos conta. O país no qual acreditávamos viver era só uma ilusão. Agora, o verdadeiro Brasil bate na nossa porta e o que estamos vendo resulta da ignorância, desigualdade social, corrupção e impunidade.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 43 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual Editora), Prêmio Guimarães Rosa em 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ em 2003; Alguém tem que ficar no gol (Edições SM), finalista do Prêmio Jabuti em 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração Editorial), finalista do Prêmio da APCA em 2015.
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