13 Mar 2017 | domtotal.com

Fantasma da memória

Há pessoas cuja presença é tão forte que se afirmam, inclusive, em sua ausência.

Viola Davis vive Rose em 'Um limite entre nós'.
Viola Davis vive Rose em 'Um limite entre nós'.

Por Gilmar Pereira

Uma fotografia tem algo de fantasmagórico. Isso se dá pelo dinamismo inerente à lógica imagética. Com uma imagem pretendemos tornar algo presente, ainda que em sua ausência. E o fantasma é a presença daquele que já passou.

Na Grécia antiga erguiam-se marcos de pedra sobre os túmulos a fim de que servissem na comunicação entre vivos e falecidos. Naquelas pedras mal talhadas, os que tiveram seu passamento ressurgiriam de forma misteriosa, estrariam presentes em sua ausência. A pedra, elemento tangível, era chamada kolossos. O que nela aparecia, o fantasma, consistia na imagem do falecido. No conjunto do aparecido e do seu suporte material estava a representação do morto. A imagem, não era tanto a figura gravada na pedra quanto aquilo que nela se via, evidenciando seu aspecto sobrenatural, que ultrapassa a natureza.

Interessante ainda é notar que a raiz mag, que dá origem à palavra imagem, também está na palavra magia, reforçando o aspecto fantástico de fazer uma ausência presente. Presente, por sua vez, é outra palavra interessantíssima. Vem do latim pré sunt, aí posto, o que aí está, o ser aí. Isso torna uma imagem ainda mais fascinante, porque nela se torna presente quem ali não está, num jogo de sim e não, de presença e ausência.

Aliás, há pessoas cuja presença é tão forte que se afirmam, inclusive, em sua ausência. Elas têm o poder de se propagarem no tempo, mesmo sem o elemento tangível de suas figuras. O que só é possível quando se é mais do que si mesmo, quando alguém representa e significa em si muito mais do que é. Quando uma pessoa é signo de acolhida e ternura ou quando representa segurança e honestidade, ela não é somente si mesma. É mais, abriga em si as imagens daquilo que representa, de modo que o inverso aconteça. Ela é lembrada diante de quaisquer outros gestos e imagens de acolhida, ternura, segurança ou honestidade. Por significar algo, alguém pode ressuscitar naquilo que significa. É o que acontece com amores passados que se tornam presentes nos beijos de novas bocas.

Uma presença significativa não passa no tempo porque o passado ressurge na imagem que a representa. Ali, na imagem, está atestada a ausência e, por isso, o ausente se faz sentir. É o que acontece no filme Fences, traduzido no Brasil como Um limite entre nós. Indicado ao Oscar em quatro categorias (filme, ator, atriz coadjuvante e roteiro adaptado) o filme fala dessas presenças que não passam. O longa trás a história de um homem frustrado que vive por sua família, mas de uma dedicação ambiguamente amorosa. Sua dedicação é um misto de amor inconsciente com cumprimento do dever para com a família sem expressão de afeto.

Como uma foto envelhecida de um passado que não quer ir, o filme parece ser feito em sépia, com uma paleta de cores com a preponderância do café, marrom e vermelho. Não só, a história tem o clima de um verão quente sem brisa: o ar está parado e faz o espectador se sentir cansado. Troy, personagem de Denzel Washington, diz estar parado 18 anos de sua vida pelo dever de cuidar da família. A sensação de dívida não lhe permite sonhar ou tentar uma nova vida. Seu espaço de liberdade está nos encontros furtivos com a amante. Todo o restante está preso na imagem do seu pai que acaba por perseguir. Sem libertar-se do passado, Troy prende a família a um esquema de vida medíocre e infeliz.

As cercas (fences) das quais que o filme fala não são aquelas que o personagem principal constrói no quintal a pedido da esposa Rose, vivida por Viola Davis (ganhadora do prêmio de melhor atriz coadjuvante). As cercas são a segurança afetiva que a mulher de Troy quer para o lar, mas são também a prisão de passados frustrantes e os limites das relações afetivas de uma família. As cercas invisíveis são construídas por palavras que se tornam imperativos morais, verdadeiras leis, réguas de madeira fincadas no terreno da vida para guardar do perigo externo, mas que também aprisionam. Todas cavadas pela presença de Troy, cuja presença vai continuar na casa e na vida de sua família, seja por adesão ou pela relação de oposição de seu filho. O filme atesta a força assombrosa do passado, o peso da fotografia da memória.

Um limite entre nós (Fences)

Em cartaz no Belas Artes, Diamond Mall e Ponteio Lar Shopping. Confira mais aqui

Gilmar Pereira
Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, graduado em Filosofia pelo CES-JF, graduando em Teologia pela FAJE. Apaixonado por arte, cultura, filosofia, religião, psicologia, comunicação, ciências sociais... enfim, um "cara de humanas". Escreve às sextas-feiras.
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