16 Mar 2017 | domtotal.com

O desespero dos políticos

No Brasil, sempre vigorou a cultura da propina.

No Brasil, sempre vigorou a cultura da propina.
No Brasil, sempre vigorou a cultura da propina. (Divulgação)

Por Jorge Fernando dos Santos

Numa entrevista à BBC Brasil, na semana passada, o presidente do TSE e juiz do STF, Gilmar Mendes, afirmou que caixa 2 não é crime e precisa ser desmistificado. Ecoando recentes declarações do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o juiz chama atenção para o problema legal, mas não se refere à origem do dinheiro – este sim, o ponto que interessa.

Segundo Gilmar Mendes, as empresas optam pela doação a campanhas eleitorais pelo caixa 2 para evitar o achaque de outros políticos, principalmente da ala governista. Ele acrescentou que, para o candidato, seria indiferente a forma de doação. Doar o que se tem é lícito, devemos admitir, o problema é doar dinheiro do Estado subtraído dos cofres públicos por meio do superfaturamento.

As declarações não causam estranheza. Afinal, os políticos querem desesperadamente legalizar o caixa 2 para tentar enfraquecer a Lava-Jato. De qualquer forma, vale lembrar, doações fora da contabilidade oficial burlam o IR e resultam em lavagem de dinheiro – o que faz do caixa 2 no mínimo uma imoralidade.

Por ocasião dos julgamentos do Mensalão do PT, a defesa do partido alegou que as propinas do esquema não constituíam caixa 2 e sim “doações de campanha não contabilizadas”. O eufemismo não inocentou os réus. Ao querer “desmistificar” o caixa 2, Gilmar Mendes e FHC seguem a mesma linha de raciocínio.
 
Cultura da propina
 
Com ou sem declaração de valores doados, as empresas não deixariam de ser achacadas por políticos inescrupulosos, essa é que é a verdade. No Brasil, sempre vigorou a cultura da propina. Obras públicas realizadas no país geralmente são superfaturadas e é daí que vem a propina. Na concorrência, quem não paga não leva.

O que se pretende, na verdade, é confundir a opinião pública e transformar a Lava-Jato numa grande pizza. Sem dúvida, a operação comandada pelo juiz Sérgio Moro desmascara de uma vez por todas o sistema político brasileiro – haja vista a listagem de nomes que Janot divulgou esta semana. Por trás das cortinas, tentam-se acordos e panos quentes, para impedir a conclusão do processo.

Prova disso são as declarações do senador Romero Jucá, hoje líder do governo no Senado, feitas no final do ano passado por telefonema gravado pela Polícia Federal. Ele enfatizou que é preciso “estancar” a Lava-Jato. O material vazou para a imprensa e causou grande repercussão.

A classe política está com a faca no gogó. Poucos escaparão das investigações e muitos correm o risco de perder o mandato ou mofar na cadeia, a exemplo de José Dirceu e Sérgio Cabral, ex-governador do Rio de Janeiro. O povo brasileiro está farto de ser enganado e há de apoiar a Lava-Jato, doa a quem doer. Esta é a única maneira legal de passar o país a limpo.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 43 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual Editora), Prêmio Guimarães Rosa em 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ em 2003; Alguém tem que ficar no gol (Edições SM), finalista do Prêmio Jabuti em 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração Editorial), finalista do Prêmio da APCA em 2015.
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