19 Mar 2017 | domtotal.com

Bruno e a tal ressocialização

Entre discussões ferrenhas, há quem pareça até grande defensor das causas prisionais.

Entre discussões ferrenhas, há quem pareça até grande defensor das causas prisionais.
Entre discussões ferrenhas, há quem pareça até grande defensor das causas prisionais.

Por Nany Mata

Fiquei impressionada com a quantidade de apoiadores da ressocialização de ex-presidiários nas últimas semanas. Parece até que os críticos dos direitos humanos aprenderam a importância de se tratar “bandidos” como gente. Tudo isso porque um “goleiro” Bruno redimido voltou aos gramados de Boa.

Essa questão levanta discussões em tantos âmbitos, que me permitir enumerá-los e dividir o tema por duas semanas de publicações, me acompanha?

A morosidade da justiça 

Bruno ficou preso por mais de 6 anos de forma provisória. Nem é preciso entender muito de leis para supor, com um mínimo de conhecimento de português, que esse prazo extrapola qualquer conceito de “provisório”, certo? Ocorre que ele foi beneficiado por um habeas corpus, concedido por Marco Aurélio Mello, que se viu impossibilitado de tomar outra decisão diante de uma prisão de natureza provisória. Isso significa, em linguagem não jurídica, que Bruno foi solto porque a justiça estava demorando demais para julgar o caso dele.

Acontece que, ainda que a decisão de soltá-lo esteja dentro do que prevê a lei, ele foi privilegiado em um país que mantem atrás das grades 244.168 mil presos provisórios, conforme dados do Geopresídio, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Esse número corresponde a 23% do total de pessoas privadas de liberdade. Muitos deles, pode ter certeza, esperam por uma resposta há mais de 6 anos e se encontram em condições subumanas, ao lado de condenados.

A jogada do Boa

O jogador entra em um time de Varginha, no Sul de Minas, que era - até então - desconhecido no resto do país, para receber a bagatela de R$30 mil reais mensais. O salário é maior do que os colegas de clube, bem mais do que a maioria da população brasileira ganha e, provavelmente, mais do que alguém que alguém que tenha cumprido pena por homicídio recebe por aí. Algumas marcas não gostaram da estratégia e, prontamente, desvincularam o próprio nome do clube varginhense, cortando o patrocínio e fornecimento de materiais/ serviços: Nutrends Nutrition, Magsul, o Grupo Gois & Silva e a Kanxa.

"Boa não está cometendo um crime", disse o presidente do clube, na certeza de que a visibilidade que ganharam com a contratação vale qualquer negócio. Boa não está cometendo crime, não diretamente. Mas aposta em uma estratégia de marketing de dar nojo e que, pense em longo prazo, amigo, vai resultar sim em sangue nas mãos – e isso é assunto para a coluna da semana que vem.
   
A Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (APAC) também pegou carona no bonde, antes de se tornar “garoto-propaganda” do Boa, Bruno – estranhamente, já que a instituição só aceita indivíduos já condenados judicialmente – passou por lá, para onde foi transferido em setembro de 2015, e também fez parte da estratégia de divulgação da associação, que faz um trabalho admirável, mas dessa vez pisou na bola.

Não é pela ressocialização

- Ah, mas as pessoas merecem uma segunda chance.

Não tenho dúvidas de que mereçam e vou lutar por isso até o último dia da minha vida. Que chances sejam dadas, em especial, a indivíduos que cresceram marginalizados, sem escolha ou possibilidades para ficar fora de uma vida de crimes.

Existem instituições que realizam trabalhos incríveis para promover a ressocialização dessas pessoas. Funciona com alguns, com outros nem tanto, mas vale a tentativa. É importante que o sistema dê espaço para tal. Além disso, eu e você podemos contribuir, oferecer colocações no mercado ou realizando doações e trabalhos voluntários.

Tudo isso, porém, depende de questões legais. A ideia não é soltar todo mundo e dar um emprego. É preciso que penas sejam cumpridas adequadamente, trabalhos multidisciplinares preparem cada um deles para reduzir a reincidência. Mas depois do crime, é preciso o castigo.

Na próxima semana, a coluna aborda a questão da idolatria ao goleiro e sua intrínseca relação com o feminicídio. Venha ler! 😉

Nany Mata
Jornalista, especialista em Gestão Estratégica em Comunicação, ambos pela PUC Minas. Trabalhou e é voluntária da Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (Apac), entidade sem fins lucrativos que visa a humanização no cumprimento da pena e a ressocialização de indivíduos que cometeram delitos. Como funcionária da entidade, tornou-se também voluntária e entusiasta dos Direitos Humanos. Atualmente é assessora de imprensa, tem ainda experiência como community manager, social media e reportagem.
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