20 Mar 2017 | domtotal.com

Do medo à barbárie

Parece que o medo atual na sociedade é algo programado, um método de manipulação das massas.

A força do medo está em conter a ação, impedir que se faça algo.
A força do medo está em conter a ação, impedir que se faça algo.

Por Gilmar Pereira

Tenho medo do medo. Das paixões da alma – esses movimentos internos que orientam o indivíduo e o dispõem de determinada maneira – o medo é uma das mais fortes. Basta lembrar que a tradição bíblica tem o amor como “mais forte que a morte” e coloca como seu oposto não o ódio. Ali se diz que “o amor lança fora o medo”, opondo, portanto, um e outro.

Se o amor implica em sair de si, dar-se, mover-se rumo ao outro e tem algo de expansão e criação, o medo, por sua vez, traduz-se numa espécie de paralisia que faz a pessoa se retrair ou fechar, chegando a limitar o viver. De fato, certa dose de medo acaba sendo algo como um alerta, motiva a prudência em favor da manutenção da vida. Acontece que a obsessão por guarda-la impede que seja gasta. Como viver é gastar a vida, quem se detém medrosamente acaba também não vivendo.

A força do medo está em conter a ação, impedir que se faça algo. Em outros casos, quando ele é extremo, da proteção se passa à ofensiva. Trata-se da ação contra-fóbica, quando a melhor defesa é o ataque. De qualquer forma, o medo determina o agir e é por isso usado nos sistemas de controle. Já dizia Maquiavel que é bom que o governante seja amado e temido, mas, tendo que faltar uma das duas opções, é melhor ser temido que amado. As simpatias são volúveis e a fidelidade inconstante, mas o medo está sempre a espreita.Assim, muitas instituições se valem do temor como método coercitivo para a coesão social, nelas não existe educação para entender e pensar a norma.

Parece que o medo atual na sociedade é algo programado, um método de manipulação das massas. Temos medo, inclusive, das duas grandes opções políticas que se nos apresentam. Os nomes citados em delações premiadas dos escândalos políticos no Brasil são da direita e da esquerda. Aliás, com a queda do muro de Berlim, a utopia de um regime igualitário também caiu. Os países que pretenderam implantar um regime socialista não lograram da justiça social esperada. O capitalismo também tem mostrado seus limites, já que a suposta autorregulação do mercado em nada diminui as desigualdades sociais (e não, não é só trabalhar que a vida melhora). Há sempre e em qualquer regime uma boa dose de exploração de quem está embaixo na pirâmide social.

Com o fim das utopias e grandes narrativas – já não há uma cosmovisão unificadora que dá sentido à vida ou mesmo um sistema filosófico ou teológico que explique tudo – a humanidade caminha rumo à desesperança. Nessa hora, parece que alguns grupos, valendo-se da falta de apoio humano, resolveram explorar o medo. E para que? Sem esperança e ameaçado, o povo tende a buscar um messias. Qualquer um que se apresente como salvador ganhará adeptos nas horas de temor. A técnica é simples: Gere o medo e se apresente como aquele que é capaz de livrar de todo o mal. Mostre como uma sombra pode ser perigosa e venda uma lanterna.

No Brasil há o medo de não conseguir o próprio sustento, dado o desemprego. Há o medo de adoecer, dada a precariedade na saúde ou os embates com os planos de saúde na hora em que se precisa de tratamento. Há o medo de comer e beber, dado o não cumprimento das normas de segurança alimentar, sem falar dos agrotóxicos, transgênicos, conservantes etc. Há o medo de sair à noite, de deixar a casa sozinha, de ser assaltado, de comprar online, de ser vítima de golpe e outros. Há o medo das relações interpessoais, da traição, da manipulação.

Estamos chegando a outro ponto que Maquiavel alertava. É preferível ser temido que amado, mas nunca odiado. O medo tem gerado sentimento de indignação que logo se converterá em raiva. Na hora que a ira irromper, a barbárie será instaurada. A reação contra-fóbica irá se voltar para todo e qualquer que constitua ameaça. O ódio que se lê nas redes sociais já tem ganhado às ruas e sua escalada tende a ser rápida e generalizada. Prepare-se para os tempos sombrios.
 
Anjos...
 
O medo, em seu poder de paralisia, geralmente, é silencioso. Há muitos que sofrem calados pelo receio de que algo pior lhes aconteça. Assim se passa nas relações afetivas abusivas ou situações laborais de opressão. Vítimas de violência e assédio moral ou sexual estão ao nosso lado sem nos darmos conta. Importa romper esse silêncio encorajando aos que sofrem romper com suas mordaças.
A peça Anjos..., num misto de emoção e razão, narra de forma poética a história de uma mulher em situação de violência doméstica e de sua filha que sofre invariavelmente com essa crueldade. É um espetáculo sensorial, feito para pessoas com deficiência auditiva e visual, possível de ser assistido por qualquer pessoa. A montagem contou com a orientação de Eid Ribeiro (Armatrux), um dos mais importantes diretores e escritores do cenário das artes cênicas de MG. Uma peça que não quer deixar o medo falar mais alto.
 
De 24 a 25 de março de 2017 | sexta e sábado, 20 horas, domingo, 19 horas.
Teatro de Bolso do Sesc Palladium (Av. Augusto de Lima, 420. Centro)
Ingressos: R$10 (inteira), R$5 (meia) e R$4 (comerciário)
Duração: 60 minutos
Classificação: 14 anos

Gilmar Pereira
Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, graduado em Filosofia pelo CES-JF, graduando em Teologia pela FAJE. Apaixonado por arte, cultura, filosofia, religião, psicologia, comunicação, ciências sociais... enfim, um "cara de humanas". Escreve às sextas-feiras.
Comentários
+ Artigos
Instituições Conveniadas