05 Abr 2017 | domtotal.com

Cabra Marcado para Morrer

Uma das primeiras obras de Coutinho ganha sessão comentada.

Uma das primeiras obras de Coutinho ganha sessão comentada.
Uma das primeiras obras de Coutinho ganha sessão comentada.

Por Charles Mascarenhas

É um país subdesenvolvido! diz a letra da música em melodia alegre, enquanto a extrema pobreza do nordeste brasileiro é escancarada no documentário Cabra Marcado Para Morrer, de Eduardo Coutinho. Documentário este, que só existe por causa da persistência do cineasta.  

No início dos anos 60, Coutinho e sua equipe de filmagens foram ao interior da Paraíba a fim de produzir o filme de ficção Cabra Marcado Para Morrer, no qual reconstituiriam e, com ajuda da população local reencenariam a história de luta do líder camponês João Pedro Teixeira, fundador da Liga Camponesa de Sapé (PB), que foi assassinado a mando de latifundiários, no ano de 1962.

Com recursos dos movimentos de cultura da UNE e de Pernambuco, o filme teve início, porém não houve finalização, pois um golpe militar se instalou no país e interrompeu as gravações sob hipótese de que o cineasta e sua equipe eram comunistas cubanos e estavam no Brasil querendo fazer revolução e consequentemente, um filme disso tudo. Nesta época, alguns membros da equipe de Coutinho foram presos e algumas imagens produzidas foram perdidas.

Nos anos 60, filmar o povo, as ruas, as injustiças sociais... a realidade como ela era, foi característica do movimento Cinema Novo Brasileiro, e Eduardo Coutinho usou desses atributos, que se referiam ao realismo social, para produzir o seu primeiro longa de ficção.

Como não foi possível finalizar a obra, Coutinho usou alguns negativos do filme que lhe restou, e retornou ao nordeste 17 anos depois, se incluiu como personagem e filmou sua procura pelos atores que participaram do filme, no intuito de lhes mostrar as filmagens inacabadas e ver o que houve de mudança na vida daquelas pessoas.

Muitos dos que participaram do filme não estavam mais na cidade que foi cenário para Cabra Marcado Para Morrer. Alguns morreram, outros fugiram dos violentos militares, mas Eduardo Coutinho persistiu e foi em busca de alguns de seus personagens que estavam em outros estados. Ele sentia que tinha uma dívida com aquelas pessoas. A dívida de retornar e lhes dar uma satisfação sobre o filme que protagonizaram.

Cabra Marcado Para Morrer se revela não apenas como um filme sobre a história de um assassinato de um líder camponês, mas a vida injustiçada de um povo que continuou na extrema pobreza.

A programação da História Permanente do Cinema, no Cine Humberto Mauro, que conta com sessões comentadas, exibirá Cabra Marcado Para Morrer no dia 20 de abril.

Charles Mascarenhas
Charles Mascarenhas é estudante de Comunicação Social em Cinema pela Puc-Minas, onde tem se dedicado à pesquisa sobre cinema.
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