20 Abr 2017 | domtotal.com

A corrupção é sistêmica

No Brasil, com raras exceções, os políticos sempre roubaram.

É preciso admitir que a corrupção está enfronhada em nossa sociedade desde os tempos da colonização.
É preciso admitir que a corrupção está enfronhada em nossa sociedade desde os tempos da colonização.

Por Jorge Fernando dos Santos

Os R$ 10 bilhões pagos aos políticos em caixa dois ou propina pela Odebrecht dariam para salvar a Previdência e resolver boa parte dos problemas nacionais. Em vez disso, temos mais problemas para resolver, já que a corrupção sistematizada quebrou empresas públicas e deixou um rombo na economia que levaremos décadas para compensar.

E olha que por enquanto só está sendo apurado o esquema da Odebrecht. Não é de duvidar que o mesmo modelo de corrupção esteja enfronhado em outras construtoras e empresas de diferentes setores da economia nacional, como seguradoras, bancos, telefônicas, planos de saúde etc.

Os fundos de pensão, todo mundo sabe, foram corroídos pela roubalheira. Empresas outrora poderosas, como os Correios, estão praticamente falidas. Por essas e outras, é preciso passar um pente fino em todas as estatais – começando pelo BNDES. Afinal, elas podem ter sofrido processos semelhantes àquele que quebrou a Petrobras.

No Brasil, com raras exceções, os políticos sempre roubaram. A diferença do que está sendo investigado pela Operação Lava-Jato é que, em sua maioria, os partidos se converteram em quadrilhas organizadas. Em vez de interromper o processo da roubalheira, o governo dos “companheiros” sistematizou o crime, deixando no chinelo a turma do “rouba, mas faz”.
 
Consciência e cidadania
 
Para agravar o problema, existem pessoas que ainda duvidam das denúncias e outras que acham natural a corrupção. Até poucos dias, militantes de esquerda acreditavam religiosamente que a Lava-Jato fazia parte de uma estratégia da direita para interromper o processo de socialização do país. Mas e agora, o que pensam a respeito?

Com as denúncias atingindo quadros do PSDB, PMDB e outros partidos da base aliada do governo tido por eles como “golpista”, a desculpa cai por terra. Na prática, o juiz Sérgio Moro está mostrando que o rigor da lei deve ser para todos, independentemente de ideologias ou discursos. Apesar das bravatas, não vale mais defender camaradas corruptos.

No entanto, é preciso admitir que a corrupção está enfronhada em nossa sociedade desde os tempos da colonização. Pessoas que criticam a classe política muitas vezes não cumprem a lei no seu dia a dia. Elas acham normal jogar lixo no chão, furar fila, subornar o guarda ou desobedecer às regras de trânsito.

Talvez o único modo de mudar essa cultura fosse introduzir no currículo escolar, desde as primeiras séries, a matéria Cidadania. Crianças e jovens aprenderiam muito cedo não apenas as leis de trânsito, mas os conceitos de Justiça, os meandros da Constituição Federal, os códigos Civil e Penal, bem como a máxima de que a cada direito corresponde um dever.

Infelizmente, em vez de formar cidadãos, o sistema se empenha em criar consumidores, visando manter a roda econômica em movimento. Mas, convenhamos, pessoas que ignoram o que seja cidadania não têm consciência política e tampouco sabem consumir ou votar corretamente. Agem por impulso, sem respeitar as leis ou o próximo. Uma sociedade alienada não tem como forjar políticos honestos.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 43 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual Editora), Prêmio Guimarães Rosa em 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ em 2003; Alguém tem que ficar no gol (Edições SM), finalista do Prêmio Jabuti em 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração Editorial), finalista do Prêmio da APCA em 2015.
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