19 Abr 2017 | domtotal.com

Lacração

Lacrar significa, hoje, dar a palavra final sobre algo; mesmo que arrasar, fechar. E isso é perigoso.

Baixo - Centro Cultural está fechando.
Baixo - Centro Cultural está fechando. (Baixo)

Por Gilmar Pereira

Não gosto da tal mania “lacradora” que invadiu a sociedade. Lacrar, ao que me consta, é uma evolução do “fechar”. Ambas as expressões referem-se a qualquer ato supostamente grandioso e que se caracteriza como palavra final. Justamente por isso também é sinônimo de “arrasar”.

O problema dessa tendência de fechar, arrasar, lacrar, dar a palavra final, é a arrogância que está implícita. Isso se reflete nos diálogos que são tomados por sentenças – a maioria condenatória – que encerra o diálogo. Não se fala aqui de quando alguém se veste e maqueia “lacrando” com o visual. A questão é a das posturas e falas.

É muito fácil ter uma fala inadequada, expressar preconceito, dizer bobagens. Isso faz parte da ignorância humana e sua limitação em aprender. Não quer dizer que se deva apoiar em tal dado para continuar no erro. Ao contrário. Mas é justamente pelo caráter de limitação do humano que a resposta a ser dada precisa ser a que se abre ao diálogo, não aquela que lacre.

Há ditos machistas, homofóbicos, misóginos etc. Sim, eles ferem e geram cultura de morte. Acontece que, perpetrados pela cultura, instauram-se nas mentes sem mesmo que se possa dar contar e não serão extirpados por uma simples resposta que fecha o debate. Há quem diga frases ofensivas sem se dar conta disso. Por isso muitos dirão que não têm preconceito, apesar dizerem que há muito preconceito no país. A dificuldade de se autopercepção coloca o erro nos outros, entre os quais nunca se inclui.

Alguém pode objetar que em pleno ano de 2017 e com acesso a internet isso não é desculpa. Acontece que a história de cada, os tipos de mídias e acessos à informação, bem como sua capacidade de assimilação é diferente de pessoa para pessoa. Não se pode entender o outro simplesmente como um inimigo irremediável a quem se deva atacar ou dar uma lição pública para que se envergonhe. Às vezes, tal comportamento gera mais animosidade ou mesmo possa levar alguém a ratificar a posição preconceituosa que antes nem era percebida.

O modo como pensamentos complexos têm sido veiculados na mídia gerou discursos intolerantes, binários, agressivos. A resposta que surgiu veio em forma de pensamentos diametralmente opostos. A postura socrática não existe mais. Esta consistiria em questionar o pensamento do outro e leva-lo a autocrítica de modo que, ao fim do processo, pudesse se ter elementos para se constituir um modo novo de pensar. O filósofo chamava tal processo de ironia e maiêutica.

A construção do pensamento por meio do diálogo não tem sido o forte de nossa época. Não vivemos na era da comunicação como se fez pensar recentemente os empolgados com as tecnologias. Estamos na era em que se grita para o outro aquilo que ele deve pensar. Damos uma palavra definitiva e no final nos gabamos de ter humilhado ou dito as “boas verdades”: Lacramos!
 
A última noite NO BAIXO
 
Um lugar que sempre acolhe a diversidade de vozes e nunca teve pretensão lacradora foi o Baixo, Centro Cultural. Aliás, só o fato de se situar no baixo centro e assumir para si a vocação de dar visibilidade a manifestações não-hegemônicas fazia do espaço um lugar de abertura. As festas com referência aos anos 90, bem bregas, lá eram um luxo só! Não era um lugar pretencioso e por isso era tão bom! Infelizmente, o Baixo está fechando as portas.

O encerramento das atividades será neste sábado, dia 22 de Abril, na já saudosa Rua Aarão Reis, 554. E quem quiser se jogar na pista pela última vez terá o som dos DJs Fael, Mari Fields, Tati Quebra Baixo e Yuga.  Eles tocarão músicas do repertório das festas organizadas pelo Centro Cultural, como a 0800 (funk, pop), Saculeja (swing brasileiro), Dig, Dig Dig (anos 90), entre outras “malemolências tropicais”.

Ingressos:
- promocional: $10
- lote 1: $15
- lote 2: $20
Informações no Facebook.
 

Gilmar Pereira
Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, graduado em Filosofia pelo CES-JF e em Teologia pela FAJE. Apaixonado por arte, cultura, filosofia, religião, psicologia, comunicação, ciências sociais... enfim, um "cara de humanas". Escreve às sextas-feiras.
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