21 Abr 2017 | domtotal.com

Piedade, a serra nobre

Um tesouro que merece atenção redobrada: a Serra da Piedade.

Um tesouro que merece atenção redobrada: a Serra da Piedade.
Um tesouro que merece ateno redobrada: a Serra da Piedade.

Por Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Minas Gerais são muitas. Um axioma incontestável que registra as marcas culturais que desenham o território mineiro com singularidades, tradições, riquezas e valores diversificados do Norte ao Sul, do Leste ao Oeste. Singularidades que responsabilizam a cidadania mineira na tarefa de bem administrar essas riquezas todas. E, quando se tem pouco, administrar é mais simples, mas se os bens são muitos, a exemplo do que ocorre nas diferentes culturas que tecem as muitas Minas, esse empreendimento é complexo. Exige qualificado exercício da cidadania, atenção amorosa redobrada e a competência inventiva para intervenções de maior alcance. Desconsiderar essas necessidades alimenta um risco abominável: o de negociar, a qualquer preço, as identidades culturais de Minas que podem impulsionar projetos com potencial para beneficiar toda a nação.  
 
Assim, deve crescer a consciência entre os mineiros a respeito do inestimável valor das muitas culturas que integram o Estado.  O começo de tudo é acabar com antipáticas chacotas a respeito da própria identidade. É preciso valorizar a mineiridade e entender a sua riqueza – tão importante quanto a terra e a natureza de Minas Gerais.  Uma cultura sustentada pela história tricentenária deste Estado, fecundada pela religiosidade e pela nobreza da fé cristã. Eivada, sobretudo, pelos personagens de destaque nos mais diferentes âmbitos - cultura, artes, educação e política. O magnífico patrimônio de Minas exige mais, muito mais, de todos.  E o primeiro passo é o respeito reverente à própria memória. , que integra a religiosidade, a cultura e a história.
 
Por isso, a tarefa primeira de cada mineiro é enraizar-se mais no próprio chão para contribuir no seu desenvolvimento integral, promovendo, assim, avanços e conquistas para todos. Esse é o único caminho que as autoridades também devem percorrer para exercer, de modo nobre, a representatividade do cidadão nas instituições todas.  Olhar para si, reconhecer-se como povo que partilha rica história e cultura, reconhecer valores, é desafio dos mineiros. Oportunidade para o crescimento da consciência cidadã de pertencer a Minas Gerais e cultivar o santo orgulho de ser gente desta terra.  Assim, cresce a força e o destemor para defender Minas, trabalhar por seu desenvolvimento e buscar o seu progresso, com ações efetivas nos campos da infraestrutura, da educação e da preservação do seu rico patrimônio material e imaterial. 
 
A consciência de pertencer a Minas deve ser testemunhada por todos para gerar uma união que faça justiça ao protagonismo do Estado no cenário nacional. Nesse sentido, são indispensáveis a correção de rumos, a ampliação de horizontes e o diálogo para desenvolver projetos inovadores, audaciosos.  Tarefas que exigem superar a subestimação do patrimônio do povo mineiro. E no cenário rico de pluralidades culturais e de riquezas naturais de Minas, há um tesouro que merece atenção redobrada: a Serra da Piedade.
 
Entre as serras e as montanhas do Estado, muitas danificadas pela mineração - um alerta para a necessidade de novos marcos regulatórios -, altaneira e nobre está a Serra da Piedade. Minas, “Estado Diamante”, tem muitas cadeias de montanhas que oferecem inúmeras belezas naturais, a aragem e o silêncio, características únicas que edificam identidades, moldam um jeito cativante de ser. E a Serra da Piedade abriga uma singularidade entre tantas outras: lá está o Santuário da Padroeira de Minas, um complexo paisagístico e ambiental que agrega biomas importantes- a Mata Atlântica, Cerrado e os Campos Rupestres. Guarda o tesouro de uma história - 250 anos do povo peregrinando na fé.
 
Uma Serra, herança mineira que todos devem sempre preservar e defender, para livrá-la das iniciativas movidas pelo lucro que cega e produz situações terríveis: as feridas no seu entorno. Preservar a Serra da Piedade é tarefa de cada cidadão, com o qualificado discernimento das instâncias judiciárias, a garra do Ministério Público e a inteligência de todo o mundo político. Todos juntos para cuidar da Serra da Piedade. A intocabilidade da Serra da Piedade e do seu entorno deve ser compromisso legal, bandeira e símbolo de uma cidadania mineira lúcida, capaz de respeitar o patrimônio que é de todos, sob a missão guardiã da Arquidiocese de Belo Horizonte. Eleger e selar no coração a Piedade, o que ela é, a Serra nobre, eis uma questão de honra para Minas e os mineiros.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
O arcebispo metropolitano de Belo Horizonte, Dom Walmor Oliveira de Azevedo, é doutor em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma (Itália) e mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico, em Roma (Itália). Membro da Congregação do Vaticano para a Doutrina da Fé. Dom Walmor presidiu a Comissão para Doutrina da Fé da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), durante os exercícios de 2003 a 2007 e de 2007 a 2011. Também exerceu a presidência do Regional Leste II da CNBB - Minas Gerais e Espírito Santo. É o Ordinário para fiéis do Rito Oriental residentes no Brasil e desprovidos de Ordinário do próprio rito. Autor de numerosos livros e artigos. Membro da Academia Mineira de Letras. Grão-chanceler da PUC-Minas.
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