18 Mai 2017 | domtotal.com

Patinando no subdesenvolvimento moral e econômico


Por Flávio Saliba

Se o povão só é patriota no futebol, as elites políticas nem isso. Exposta a podridão da vida política nacional, o que se presencia, além da longa tortura mental a que estamos sendo submetidos, é um salve-se quem puder no parlamento brasileiro. Nenhum suicídio, nenhum mea culpa, nenhum singelo pedido de desculpas da parte de políticos ou empresários denunciados como soe acontecer em nações mais civilizadas. Alguém tem dúvida de que nosso persistente estado de subdesenvolvimento tenha tudo a ver com o assalto sistemático aos cofres públicos, com a formação de verdadeiras quadrilhas que se julgam legitimadas pelo voto popular, mas que empregam todas as suas energias na conquista de vantagens pessoais?

Está mais do que claro que o chamado “Custo Brasil” inclui as vergonhosas propinas, correspondentes a um percentual  variável do custo de obras e serviços superfaturados e “mal prestados” ao poder público. Num ambiente desses não há como planejar o desenvolvimento social e econômico do país, já que verbas são alocadas, não em função de reais necessidades e, sim, em função de obscuros interesses que levam à ineficiência do Estado e consequente sucateamento da educação, da saúde, da infraestrutura de apoio à produção, da segurança pública e de um sem número de serviços coletivos. Se, por um lado, a atual crise política acena com a possibilidade de emergência de um novo Brasil, livre das desgastadas e insaciáveis oligarquias e das frações corruptas do chamado baixo clero, por outro, um sem número de parlamentares que correm o risco de cair nas garras da justiça, se movimentam para aprovar leis em benefício próprio, como a de uma anistia geral ou, pelo menos, dos crimes de caixa dois.

O risco que se corre é o de ver os esforços de passar o país a limpo, como os da operação Lava-Jato, irem para o brejo. O governo federal, que tenta votar reformas indispensáveis à superação de uma crise econômica sem precedentes na história deste país, se esforça, com todo tipo de concessão à sua base no Congresso, para que essas reformas sejam rapidamente votadas.

Mas é provável que, além de sofrerem alterações para atender a interesses eleitoreiros, tais reformas venham a ser postergadas devido à urgência com que os parlamentares pretendem votar uma reforma política que venha a livrá-los, no curto prazo, de responder à Justiça e, no longo prazo, de garantir sua permanência na vida política brasileira através, por exemplo, das chamadas listas partidárias fechadas. Votar no partido e, não, em candidatos  significa garantir o poder aos caciques partidários, que, em última instância, vão montar essas listas, ficando tudo como “dantes na terra Abrantes”.

Que Deus nos livre desse retrocesso. A esquerda que, antes de assumir o poder se proclamava arauto da moralidade, agora se faz de cega para os problemas que destroem a nação. Acabou a história de justiça seletiva e, mesmo assim, os partidos de esquerda apeados do poder, fazem coro a forças retrógradas, negando-se a entender o significado de um momento histórico mais do que nunca propício ao aperfeiçoamento da democracia e à faxina ética que pode alçar o país a um patamar de seriedade e eficiência capaz de tira-lo da lama econômica e moral em que, há séculos, vem patinando.

Flávio Saliba
Formado em Ciências Sociais pela UFMG (1968), Doutor em Sociologia pela Universidade de Paris (1980), Pós-doutorado na Berkeley University (1994), Professor de Sociologia da UFMG. Livros publicados: 'O diálogo dos clássicos: divisão do trabalho e modernidade na Sociologia' (Ed. C/Arte, BH, 2004), 'História e Sociologia' (Ed. Autêntica, BH, 2007). Vários artigos publicados em revistas e jornais nacionais.
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