05 Mai 2017 | domtotal.com

O congresso do PT e a periferia sem armas

Precisamos pensar no que foi feito nos últimos 13 anos, e o que faltou fazer.

Precisamos pensar no que foi feito nos últimos 13 anos, e o que faltou fazer.
Precisamos pensar no que foi feito nos últimos 13 anos, e o que faltou fazer.

Por Marcel Farah

Aproxima-se o congresso do maior partido de esquerda da América Latina. Agora em junho, o PT definirá sua nova direção, sua presidência, e o que fará daqui pra frente.

O momento é muito delicado. Vivenciamos 13 anos de governos federais petistas, que foram interrompidos por um golpe parlamentar-midiático. Percebe-se, pelas propostas do governo golpista, que o motivo central do tapetão foi impedir que o governo continuasse garantindo direitos para a maior parte da população.

Recentemente, as delações de expoentes da burguesia nacional como Marcelo e Emílio Odebrecht, revelam que eles são mais corruptos e banalizam mais a corrupção do que qualquer político. Para os patrões (pelo menos para estes grandões) faz parte do sistema ser corruptor. Mas isso todo mundo já sabia. Só fingem que não sabiam para poderem continuar a caçada contra a esquerda e os direitos do povo. Afinal, direito incomoda patrão, pois, segundo eles, diminui os lucros…

Ou seja, o que mais é preciso agora é que o PT, e a esquerda como um todo se manifestem. E é o que tem sido feito. É o que foi feito em 28 de abril. É o que tem que continuar a ser feito.

Contudo, há vozes no PT, vozes que estiveram no comando do partido nos últimos tempos, que estão em dúvida sobre o que deve ser feito, sobre como lidar com o golpe, sobre como reconhecer os erros cometidos. Como em todo lugar, há disputas internas no PT, e desta vez como em outras, estas disputas, apesar de internas, têm ampla repercussão externa.

Por isso precisamos pensar no que foi feito nos últimos 13 anos, e o que faltou fazer. Sobre o que faltou tenho algumas intuições.

Todas no sentido de que quem dá sustentação a um governo popular, é o popular, é o povo. Portanto, o setor mais fortalecido de um governo popular deve ser o povo.

Estive junto com o governo Lula e Dilma, mas me refiro ao que não foi feito em terceira pessoa, pois estive na ala dos que achavam que deveria ser feito.

Não promoveram uma educação libertadora.

Não democratizaram a mídia nacional.

Não reformaram os tributos, a propriedade da terra, o acesso à cidade.

Não enfrentaram o machismo, a “LGBTTT-fobia”, a misoginia.

Não ensinaram como se faz um habeas corpus para os alunos das periferias.

Não preveniram sobre a possibilidade de existir uma “baleia azul”.

Não preservaram o código ambiental.

Não criaram empregos consistentes, dignos.

Não incentivaram a industrialização, a produção de alimentos saudáveis no campo, a economia solidária.

Não transformaram o Fórum Nacional de Educação em lei.

Enfim, não armaram o povo, mesmo que sem utilizar armas.

Hoje não falam nada sobre o que está acontecendo.

Ficam calados, com medo de falar mal do Moro e da Justiça. Mas também sem defender medidas enérgicas contra o sistema corrupto.

O que querem afinal? Mais mediações?

Não dá. Não há mais espaço para mediações. Estamos no “corner” tomando soco na cara, não tem como negociar. A única saída é reagir, com ação, respondendo a cada acusação, reconhecendo que o partido não deveria ter entrado no jogo do financiamento empresarial como todo partido da burguesia fazia. E acima de tudo, temos que pensar em um programa de formação popular, que fortaleça o povo, a inteligência comum. De nada adianta propor uma constituinte para a reforma política, se as pessoas nem sabem o que é isso. De nada adianta “descobrir” as percepções da periferia se não as construímos juntos, se nos separamos dela.

Este maio de 2017 tem que ser o mês do reencontro, reencontro do partido com sua estratégia socialista, reencontro das direções com a base, reencontro da educação com a política, reencontro da unidade na luta pela transformação de nossa sociedade.
Nossas verdadeiras armas são nossos corpos e consciência coletiva.

Marcel Farah
Educador Popular
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