12 Mai 2017 | domtotal.com

Lula mobiliza o Brasil em Curitiba


Por Marcel Farah

Uma pessoa como outra qualquer. De tão comum e popular Lula é uma multidão. Grande demais para caber em um processo conduzido por um juiz, pelo ministério público e pela mídia. Esta é a sensação que me deixa o depoimento de Lula ao juiz da lava-jato, na última quarta-feira 10 de maio.

Noticia-se que cerca de 20 mil pessoas tenham marchado em Curitiba para apoiar o ex-presidente, enquanto do lado de seus opositores as manifestações fracassaram.

Insistência inquisitorial

Na condução do depoimento o juiz Sérgio Moro foi cansativo e repetitivo. Perguntou cerca de cinco vezes cada uma de suas questões, às quais pacientemente Lula respondeu. A defesa do ex-presidente pediu várias vezes ao juiz que não fizesse questões sobre fatos externos à denúncia do processo. Mais de 10 vezes o advogado do ex-presidente frisou que se tratava de um processo cujo foco de investigação eram três contratos da OAS com a Petrobras e um apartamento triplex no Guarujá. Mesmo assim, de forma irredutível, o juiz manteve todos os seus questionamentos, chegando a perguntar o que Lula achava do julgamento do mensalão, pergunta que, orientado por sua defesa, o ex-presidente não respondeu, mas sugeriu à Moro que marcasse um debate para que pudessem conversar sobre a questão.

Para completar, o juiz ainda disse que a defesa estava tumultuando a audiência, frente aos reiterados pedidos do advogado do ex-presidente para que o juiz se ativesse ao processo em questão. O que o juiz desconsiderou é que se os advogados não fizessem os questionamentos não teriam utilidade no processo.

Um chefe que se contentava com migalhas

Lula se saiu muito bem. Tranquilo explicou toda a situação envolvendo as tentativas de venda do triplex por parte da OAS, e sua recusa, apesar das tratativas terem sido feitas por sua falecida esposa.

O depoimento em si durou quase 5 horas, das quais uma conclusão é evidente: um triplex de 2 milhões de reais é, em termos monetários, uma migalha, perto das cifras de 100, 200 milhões de reais quando o assunto foram as propinas apuradas na Petrobras. Será que o chefe da quadrilha se contentaria com migalhas?

Por outro lado, trata-se de uma manobra contorcionista acusar o ex-presidente de receber um apartamento que ele não pleiteou, cujas reformas não foram por ele solicitadas, que ele não pagou e que nunca esteve em seu nome, nem no de sua esposa, que era quem, na realidade, fez todas as tratativas sobre o negócio.

O ponto de vista da mídia

Mas esta não é a visão da mídia, duramente criticada por Lula durante o depoimento. Para os jornalões O Globo,Folha de São Paulo e Estado de São Paulo:

1. Lula teria atribuído à Marisa decisões sobre o triplex. Como se, com isso, o ex-presidente quisesse jogar a culpa para alguém que já faleceu. No mínimo desrespeitoso. O problema é que todos documentos utilizados pelo juiz para fazer questionamentos estavam assinados por dona Marisa.

2. Lula teria admitido ter se encontrado com Renato Duque, ex-diretor da estatal e preso por corrupção. A questão é que Lula nunca negou este encontro, portanto não teria admitido, mas sim confirmado isso. Um jogo de palavras que vale mais do que pesa.

3. Lula se disse vítima de caçada política. Isso ocorreu mesmo, mas não sem fartos elementos, como as 530 matérias negativas do “O Globo” comparado com as 8 positivas sobre a sua pessoa, ou as 298 matérias da Folha de São Paulo versos 40 favoráveis e as 318 desfavoráveis frente às 2 favoráveis do Estado de São Paulo, o que inviabiliza a utilização destes jornais como fonte de informações para basear acusações contra o ex-presidente. Ou seja, todo um contexto existiu para estas afirmações, não foi uma afirmação solta como querem os jornais.

O que não apareceu na mídia

O que os jornais não destacaram foi que o ex-presidente explicou que a forma como a lava-jato atua, em parceria com a mídia, fere de morte os princípios do contraditório, da ampla defesa e da presunção de inocência. Fato que o juiz também desconheceu. Outra questão é que continuam não existindo provas de nada que desabone o ex-presidente. Que houve insistência descomunal por parte do juiz para questões externas ao processo fossem tratada na audiência. Que a rashtag #MoroPersegueLula ficou em primeiro lugar no twitter superando em muito a #AvanteMoro, no dia do depoimento. E que Curitiba se encheu de vermelho, com milhares de apoiadores do ex-presidente.

Também não apareceu na mídia a tirada de Lula quando lhe foi perguntado se sabia da corrupção na Petrobras.

Lula: "Nem eu, nem o senhor, nem o Ministério Público, nem a Petrobras, nem a imprensa, nem a Polícia Federal. Todos nós só ficamos sabendo [dos desvios de dinheiro na Petrobrás] quando foi pego no grampo a conversa do Youssef com o Paulo Roberto."

Moro: "O senhor que indicou ele ao Conselho de Administração da Petrobras. É uma situação diferente de mim, que não tenho nada a ver com isso, nunca participei disso".

Lula: "O senhor que soltou o Youssef e mandou grampear. Poderia saber mais do que eu"

Moro: "Eu decretei a prisão do Alberto Youssef, é um pouco diferente".

Mas o judiciário é assim mesmo

Gilmar Mendes (do STF) e Rodrigo Janot (Procurador Geral da República), dois cúmplices do golpe, continuam a brigar. Janot pediu ao STF que declarasse Gilmar impedido de atuar no julgamento de Eike Batista (solto pelo mesmo Gilmar na sexta-feira, 28, às 19h para não aparecer no noticiário tomado pela greve geral), já que a mulher do ministro, Guiomar Mendes, é sócia do escritório que defende Eike.

Sujo e mal lavado

Contudo, Janot não fez nada em relação ao impedimento de Gilmar, quando este declarou nula a posse de Lula como ministro de Dilma. Neste episódio quem entrou com o pedido no STF foi a advogada Marilda de Paula Silveira coordenadora do mesmo Instituto Brasiliense de Direito Público cujo Gilmar é dono.

Pega fogo

Mas a história não para por ai. Pois Janot também poderia ser declarado impedido já que sua filha, Letícia Ladeira Monteiro de Barros, é advogada da OAS, empreiteira por ele acusada na operação lava-jato. Promiscuidade é o que não falta.

Enquanto isso, os massacres continuam

O golpe passou e com ele o aumento da criminalização da classe trabalhadora e de seus segmentos mais subalternos. Em nota recente a Marcha Mundial de Mulheres denúncia o aumento da violência contra pobres, negros e indígenas. Nos últimos dois meses 7 pessoas, militantes do MST foram assassinadas no Pará. Semana passada, indígenas do povo Gamela, foram baleados e tiveram as mãos decepadas no Maranhão. Nos últimos dois anos 137 indígenas foram assassinados no Mato Grosso do Sul. Em Goiânia, no dia da greve geral, o estudante Mateus sofreu traumatismo craniano por golpes de cassetete de um policial militar.

O que importa mesmo não é preocupação do sistema judiciário.

E como dizem as mulheres da marcha: Fora Temer! Diretas Já!

Marcel Farah
Educador Popular
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