17 Jun 2017 | domtotal.com

O desfio de deixar-se cuidar

Deixar-se cuidar tem como fundamento a quebra do orgulho.

Cena de 'Tio Vânia (aos que vierem depois de nós)'
Cena de 'Tio Vânia (aos que vierem depois de nós)'

Por Gilmar Pereira

Ser cuidado é mais difícil do que cuidar. Implica em reconhecer as próprias fraquezas e limitações, saber que há coisas que você não pode fazer por si mesmo ou que outro as possa fazer por você. E o pior, que o outro veja tais limites.

Deixar-se cuidar tem como fundamento a quebra do orgulho. Essa característica tem como centro o eu. O orgulhoso é alguém que quer bastar-se a si, ser autossuficiente. No cristianismo isso é entendido até como um dos vícios que dão origem a outros, trata-se do pecado capital da soberba. Em sua fantasia, o soberbo sonha com a perfeição e quer assumi-la. Por isso são solitários, embora cercados de gente.

Por se colocarem no lugar de perfeição, os orgulhosos cuidam de sua imagem que não pode ser maculada. Alguns serão, inclusive, grandes ajudadores. Podem ser capazes de heroísmos em favor de outros, mas estes serão feitos pela satisfação do próprio ego. Às vezes, para parecerem bons; outras, para se autoconvencerem de que o são. Serão líderes, terão muitos seguidores e outros tantos à quem voltarão seu beneplácito. Entretanto, serão tudo para os outros sem ter quem o seja para si. Podem se parecer com Hitler ou com madre Teresa, assumindo-se quase como divindades ou agindo como os maiores humildes, já que a humildade é próxima da perfeição e é isso que querem ter. O eu está no princípio e no fundamento do agir.

O que se descortina na vida orgulhosa é que o determinante não está na ação, mas no espírito que a motiva. Nesse sentido, tendo a si mesmos como centro, buscam convergir tudo para si, mas se preservando de qualquer contato profundo. Talvez porque intuam que não são aquilo que gostariam de ser. Sabem que não são perfeitos e que, se tocados, tudo se desmancharia. Por isso não são amados, porque não se deixam amar.

Deixar que outro cuide exige também que se reconheça os dons e as capacidades deste que se oferece. O que pode tocar na baixa autoestima do orgulhoso, que quer ser perfeito e sabe que não é. Reconhecer qualidades em outrém acaba virando rivalidade ou inveja. Sempre haverá a suspeita de que a caridade alheia é motivada por interesses escusos ou está implicará em algum tipo de dívida que deverá que este não quererá ter. No fundo fica a questão: "Porque alguém me amaria?". Talvez haja um senso de indignidade implicado em todo orgulho e resistência em ser amado.

De alguma forma, o orgulho toca todo o ser humano, em maior ou menor grau e com mais ou menos constância. Em alguma medida, ele tem uma dose de resistência aos possíveis abusos que outros podem querer cometer para conosco. Pode ser um certo senso de dignidade porque consiste na afirmação do eu. Contudo, o eu que se afirma em detrimento do tu perde a capacidade da relação. E é na relação que o sujeito é fundado como si-mesmo, como aponta a psicologia e a filosofia. Algumas religiões apontam para esse descentramento que encontra no amor, essa afirmação do outro, a realização humana. No olhar que o outro me devolve eu renasço.

Galpão 35 anos

O Galpão é um desses grupos que criam e se recriam. Sua história se remete ao ano de 1982, data de seu nascimento.  O grupo desenvolve um teatro que alia rigor, pesquisa e busca de linguagem, com montagem de peças que possuem grande poder de comunicação, o que faz dele uma das referências do teatro nascional. Comemorando seus 35 anos, o Galpão vem desenvolvendo um bela programação. Várias peças de seu repertório voltam aos palcos, peças que nos devolvem o olhar e nos permitem recriar nossa existência. Acompanhe a programação.

Gilmar Pereira
Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, graduado em Filosofia pelo CES-JF e em Teologia pela FAJE. Apaixonado por arte, cultura, filosofia, religião, psicologia, comunicação, ciências sociais... enfim, um "cara de humanas". Escreve às sextas-feiras.
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