18 Jun 2017 | domtotal.com

A gente vai envelhecer...


Por Nany Mata

92 anos, em torno de 75 deles, vividos ao lado da esposa. Moraram sempre naquela cidade, desde que saíram da zona rural do mesmo município. A longa relação resultou em seis filhos, três homens e três mulheres, que lhes deram 14 netos. Esses, por sua vez, aumentaram a família com 8 bisnetos e esse número continua a crescer.

A esposa faleceu há quase dois anos, depois de passar cinco entre a sala e o quarto, pois além de ter perdido os movimentos do lado esquerdo, sofria de Mal de Alzheimer. Nunca foi santo, mas ao mesmo tempo, um ótimo homem. Se é que você me entende. Cometeu lá seus erros de percurso, como todos nós cometemos. Os últimos anos ao lado dela podem ter sido os mais difíceis de sua vida, nunca tive coragem de perguntar, mas só de vê-la aos berros, reclamona, acordando no meio da noite ao lado dele, consegue imaginar que não era fácil.

Depois que ela se foi – e, por favor, não pense nisso como egoísmo – as coisas tendiam a ser mais fáceis. Afinal, nunca foi de adoecer. Forte como um touro, apesar da aparência frágil por causa de seu corpo franzino, aparentava umas duas décadas a menos. Equilibrado, paciente, pacato e com semblante otimista, mesmo quando as coisas iam de mal a pior. Permaneceu assim por alguns meses. Viajava para ver os amigos, os irmãos que permanecem vivos e os filhos. Parecia se divertir.

Nos últimos meses, as coisas mudaram um pouco de figura. Ficou com aspecto de seus 92 anos. Recusa-se a comer porque não se sente bem. Deseja ficar longe de casa porque quando lá está, encontra diversos problemas. Adoeceu por seguidas vezes, pneumonia, disse o médico.

Filhos, netos e bisnetos moram longe, em especial, aqueles que vivem ali na esquina. A vida é corrida demais, coisas muito importantes a serem feitas aparecem no decorrer dos dias tão curtos. A prioridade é o trabalho, a escola, levar os filhos na natação, comer um churrasco na casa do sogro, andar a cavalo na fazenda, ir à concessionária ver se chegou o modelo que queria, beber uma cerveja enquanto assiste o jogo do time do coração. Tudo é prioridade, menos ele, com seus 92 anos.

Sozinho, luta contra a velhice porque não foi preparado para envelhecer. Sentia-se jovem e acreditava que seria assim até o último dia de sua vida. Já não tem a mesma graça encontrar os amigos para um carteado ou ouvir no rádio o jogo do brasileirão. Não consegue comer a comida que a empregada faz, tampouco a sopa que cozinhou com dificuldade em mais uma noite sozinho em casa.

E ainda há quem diga “você precisa ter filhos, ou vai passar a velhice só”. 

Nany Mata
Jornalista, especialista em Gestão Estratégica em Comunicação, ambos pela PUC Minas. Trabalhou e é voluntária da Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (Apac), entidade sem fins lucrativos que visa a humanização no cumprimento da pena e a ressocialização de indivíduos que cometeram delitos. Como funcionária da entidade, tornou-se também voluntária e entusiasta dos Direitos Humanos. Atualmente é assessora de imprensa, tem ainda experiência como community manager, social media e reportagem.
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