13 Jul 2017 | domtotal.com

Está tudo dominado


É indispensável ao sucesso das ações de investigação a punição dos envolvidos no assalto aos cofres públicos.
É indispensável ao sucesso das ações de investigação a punição dos envolvidos no assalto aos cofres públicos. (Reprodução)

Por Flávio Saliba

Tinham razão as crianças de rua que um dia me afirmaram, num jargão próprio da bandidagem, estar “tudo dominado”. É isso que constatam os brasileiros ao verem ameaçadas as conquistas no combate ao crime organizado que defenestra as instituições públicas nacionais. Apesar da advertência de algumas autoridades de que o apoio popular é indispensável ao sucesso das ações de investigação e punição dos envolvidos no assalto aos cofres públicos, não há sinais de que a população esteja disposta a sair às ruas em sua defesa. Onde andam as lideranças dos movimentos sociais que sacudiram o país nos últimos anos? Onde andam os intelectuais e formadores de opinião que outrora estiveram à frente de grandes manifestações públicas? Com certeza, estão recolhidos em ambientes que compartilham suas crenças ideológicas, sem a coragem de dar a cara a tapa e reconhecer que andaram errando, e muito. Parecem ignorar que, acima dos interesses partidários, o que está em pauta é a oportunidade de passar o Brasil a limpo e dar um tiro de misericórdia nas práticas cartoriais e patrimonialistas herdadas do passado colonial e que, hoje, convivem em harmonia com os arrivistas e a “modernidade” do crime organizado.

Como afirma Max Weber, uma vez instaladas, as burocracias resistem firmemente a mudanças. O que dizer daquelas dominadas pelo crime organizado, fontes de privilégios e enriquecimento ilícito? Seus vasos comunicantes são infindáveis e terminam por colocar no mesmo saco, empresas públicas e privadas, situação e oposição, esquerda e direita. A ironia fica por conta das alianças de conveniência que se estabelecem quando fica claro que não há perseguição ou investigação seletiva alguma. 

Apegados aos seus modelos teórico-ideológicos, economistas e cientistas políticos deram pouca ou nenhuma atenção à investigação do papel da corrupção sistêmica na reprodução do subdesenvolvimento econômico, na vergonhosa condição da nossa infraestrutura produtiva e social, nas alianças políticas espúrias ou no desempenho dos partidos políticos. Para eles a corrupção não passa de fenômeno circunstancial e desprezível, objeto demagógico do discurso reacionário.

A estupidez é tanta que a senadora, hoje presidente do Partido dos Trabalhadores, chega a dizer em plenário que, entre apoiar o mercado ou amparar os pobres, seu partido optou por estes últimos. Ora, como é possível ter desenvolvimento social sem um mercado dinâmico, capaz de gerar emprego e renda? Trata-se da mais equivocada das crenças nutridas pela esquerda, que aposta na ruina do mercado como condição para alcançar o socialismo. Se o mercado é o vilão, não há porque criar as condições para seu florescimento. Ao contrário, o importante é aumentar impostos, sufocar empresas criando empecilhos à sua sobrevivência, exigir propinas mantendo-as sob controle e, finalmente, leva-las à falência, como fizeram primeiro, com as empresas públicas,   diretamente controladas pelo governo.

Flávio Saliba
Formado em Ciências Sociais pela UFMG (1968), Doutor em Sociologia pela Universidade de Paris (1980), Pós-doutorado na Berkeley University (1994), Professor de Sociologia da UFMG. Livros publicados: 'O diálogo dos clássicos: divisão do trabalho e modernidade na Sociologia' (Ed. C/Arte, BH, 2004), 'História e Sociologia' (Ed. Autêntica, BH, 2007). Vários artigos publicados em revistas e jornais nacionais.
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