18 Jul 2017 | domtotal.com

A paciência que tudo alcança

A experiência atesta que quase nada é constante. Ou melhor, que a grande constância da vida é a mudança.

Processo criativo da Cia Deborah Colker para o espetáculo 'Cão sem plumas'.
Processo criativo da Cia Deborah Colker para o espetáculo 'Cão sem plumas'. (Cafi/ Divulgação)

Por Gilmar Pereira

Ainda me lembro da menina da série “Hoje é dia de Maria” cantando: “Constância, meu bem, constância. Constante sempre serei. Constante até a morte. Constante eu morrerei!”. O que também me faz lembrar os bois no arado, firmes, contínuos, obstinados, e do conceito físico de movimento retilíneo uniforme. Essas ideias todas me vêm à mente na palavra paciência.

Parece que hoje em dia essa virtude não tem sido muito apreciada. Talvez nem tanto no passado, embora vivida. Tudo bem que muitas vezes ela foi confundida com subserviência, essa coisa que nos leva a suportar até mesmo o indevido. A paciência não. Prima da esperança, ela guarda algo de paz, do não deixar-se abalar por contrariedades.

Os mais antigos costumam aconselhar a ter paciência. Parece que a experiência atesta que quase nada é constante. Ou melhor, que a grande constância da vida é a mudança e, por isso, é preciso ter paciência com as demoras e as adversidades. Cedo ou tarde as coisas mudam. Assim a paciência era algo que se recomendava mais antigamente do que hoje, em que a máxima repetida à exaustão é de que “ninguém é obrigado a nada”. E ainda se cita a Constituição Federal onde se diz: “ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei”.

A insistência na ideia de não ser obrigado gera duas posturas. A primeira é de boa autoestima e afirmação de si. Diante de algo que humilha ou degrada é importante se afirmar e romper com isso que não nos gera mais vida. Entretanto, uma segunda postura é a da incapacidade de sofrer, o que não é bom. Quem não sabe suportar incômodos e inconvenientes torna-se alguém mimado, incapaz de enfrentar sozinho a vida e vai ser infeliz porque as coisas não funcionam sempre como queremos.

Quantos, para ter ascensão social, não precisam ter paciência e suportar alguns bons anos dividindo o tempo entre trabalho e estudo, dormindo não o tanto que gostariam, muitas vezes se alimentando mal e enfrentando transporte público e trânsito caótico? Há de se esperar – lutando, mas há de se esperar. E aqui é que entra a paciência. As coisas demoram, são cansativas, dão errado. A paciência leva a erguer-se e a insistir constante.

Há coisas que se deve abandonar sim, por isso a paciência não é subserviência e tem hora que ela acaba. Contudo, ela leva a olhar os distintos cenários e a perceber as possibilidades de mudança. Sem paciência, o agricultor não colhe os frutos. Se ele tirar todo tempo a semente da terra para ver se já brotou, o grão não crescerá.

De fato, ninguém é obrigado a nada, mas a paciência permite que se chegue a novas realidades. A paciência com o aluno que tem dificuldade de aprender leva o professor a ser testemunha do seu sucesso quando formado. A paciência da mãe com o temperamento do filho pode gerar o adulto responsável. A paciência com o colega chato do trabalho leva a não piorar as relações no ambiente laboral e a ter a firmeza devida na hora de lhe corrigir. A paciência na crise financeira ajuda a ter foco e determinação na busca de emprego e prudência na administração do dinheiro. A paciência sabe a hora certa.

Em um de seus poemas, Santa Teresa de Ávila dizia: “Nada te perturbe, nada te espante. Tudo passa. Só Deus permanece. A paciência tudo alcança”. Agir no calor das emoções, sem temperar devidamente o que se sente, pode culminar em maus resultados. A paciência é o cadinho onde o tempo burila os sentimentos para se tornar o ouro purificado da ação acertada. Quando a paciência acaba e é hora de mudar, restam a temperânça e a prudência.  Por isso, respeite seus ritmos. Mantenha a calma. Tenha paciência. Aguarde a hora certa. Mas saiba, sobretudo, com o que ser paciente.

Cão sem plumas

Todos os dias nosso povo se vê vítima da injustiça e de uma de suas consequências, a violência. Pacientemente se resigna ao ponto de se calar e se acostumar. Como consequência, a situação piora porque os opressores, sem resistência dos oprimidos, desconhecem limites. Mas a paciência que se deve ter não é para com quem lhe faz o mal, mas no agir, a fim de que se consiga o basta definitivo. O juízo apressado e a ação desproporcional costumam fazer com que se perca a razão, mesmo quando se está certo. Assim, uma pessoa ou um povo que sofre, deve ter paciência para avaliar a situação ou se mobilizar e responder com firmeza a quem oprime. Calar-se, não mais. É hora de levantar a voz.

João Cabral de Melo Neto ergueu a sua em favor dos mais pobres. Seu poema "Cão sem plumas", fala da pobreza da população ribeirinha, o descaso das elites, a vida no mangue, tendo como tema o percurso do rio Capibaribe. Mesmo assim continuamos pacientes porque parecemos não ver os descasos contínuos, vide o caso do desastre de Mariana, que parece ter se tornado longe da memória popular. E as vítimas? E o povo? E o rio? Como estão hoje? E os responsáveis? E a punição? E o reparo aos estragos e mal feito? Precisamos ser relembrados, sacudidos.

“Cão Sem Plumas” também é o novo espetáculo da Cia. Deborah Colker. Baseado no poema homônimo de João Cabral de Melo Neto, a obra de dança contemporânea, concebida por Deborah Colker e pelo cineasta Cláudio Assis, leva para a cena o potente relato poético do escritor pernambucano sobre o Rio Capibaribe, da sua nascente ao encontro com o mar. “Cão Sem Plumas é um poema geográfico, cheio de imagens. O espetáculo é um encontro da dança com o cinema”, diz Deborah. Participam do espetáculo 15 bailarinos da Cia. Deborah Colker cuja última apresentação em Belo Horizonte aconteceu em 2015.

Nos dias 5 e 6 de agosto, o Sesc Palladium recebe o espetáculo Cão sem Plumas. Sábado, às 21h e domingo, às 19h;

Valores:
Plateia I | R$ 110 inteira / R$ 55 meia-entrada
Plateia II (Parte 1) | R$ 110 inteira / R$ 55 meia-entrada
Plateia II (Parte 2) | R$ 50 inteira / R$ 25 meia-entrada
Plateia III | R$ 50 inteira / R$ 25 meia-entrada

Ingressos à venda nas bilheterias do teatro ou pelo site Tudus

Gilmar Pereira
Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, graduado em Filosofia pelo CES-JF e em Teologia pela FAJE. Apaixonado por arte, cultura, filosofia, religião, psicologia, comunicação, ciências sociais... enfim, um "cara de humanas". Escreve às sextas-feiras.
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