21 Jul 2017 | domtotal.com

É preciso aprender a se frustrar


Cena de 'Como se tornar um conquistador'.
Cena de 'Como se tornar um conquistador'. (Divulgação)

Por Gilmar Pereira

No, we can’t! Não, nós não podemos! Ao menos nem sempre. Vá aprendendo a lidar com isso, porque você não vai ter tudo o que quer, nem conseguir tudo o que deseja. E não, nem tudo “o que eu quiser o cara lá de cima vai me dar”. Essas histórias de fé movidas a vitórias e sucessos são, inclusive, distantes do autêntico cristianismo que despreza o que o mundo valoriza e valoriza o que o mundo despreza. Aprenda que, mesmo com “reza brava”, o sucesso não vem sempre - e o fracasso não invalida a oração de um crente.

O problema todo começa na cultura da superproteção. A geração atual derivou de outras mais austeras. Lembre-se que o mundo demorou a se reestruturar após a Segunda Grande Guerra e a possibilidade de outro conflito entre os dois blocos nos quais o globo se dividiu, liderados por EUA e URSS, deixou marcas profundas no comportamento. Isso sem falar dos regimes ditatoriais que proliferaram na América Latina. Mesmo a juventude hippie tinha ideais sobre um novo modelo de sociedade e se engajava em manifestações e atitudes políticas para reverter o cenário, o que implicava, apesar de sua exuberância, certa firmeza para insistir sobre os valores que defendiam. A distância entre ricos e pobres era mais acentuada, principalmente nos países chamados de Terceiro Mundo.

A geração que cresceu ao fim dessas transformações todas, que nasceu por volta dos anos 70 e 80, hoje, em grande parte, são pais e mães. Ao menos no Brasil, assistiram a mudanças sociais importantes, entre elas certa popularização do conhecimento e da informação. Filhos de tempos austeros, quiseram criar suas crianças com menos rigor e peso do que aquele com o qual foram educados. Acostumados a privações e por elas marcados, resolveram dar tudo do bom e do melhor para os seus filhos, justamente aquilo que não tiveram. Com acesso a alguma informação vaga de pedagogia e psicologia, tentaram educar sem os castigos severos que lhes foram infligidos na infância. Ainda hoje se ouve relatos das surras com varas, fios, cintos, chinelos. Coisas que marcavam. Na nova consciência advinda do aumento da escolaridade e popularização da informação, tais práticas foram sendo (ainda bem!) deixadas de lado.

O resultado foi uma geração superprotegida. Uma criança de três anos de idade já possuiu mais brinquedos que seus pais tiveram em toda sua infância. Porque, afinal de contas, alguns projetam nos filhos a frustração daquilo que não tiveram e não querem deixar que estes passem pelo mesmo. Também houve confusão entre agressão e estabelecimento de limites. Qualquer 'não' passou a ser entendido como algo que fere e traumatiza a criança, justificando-se em leituras deturpadas do conhecimento psicopedagógico. "Deixem que as crianças rabisquem as paredes. Isso exercita a criatividade. Depois é só pintar", dizem uns. "Ceda sempre ao desejo da criança em assistir TV e lhe obedeça mudando para o canal por ela desejado", parecem dizer implicitamente outros em suas ações.

Decorrente da superproteção, houve certa fragilização das pessoas. Há uma geração despreparada para o "não", para o insucesso, para o fracasso, para o termino de relações. Não só para isso, mas mesmo para assumir compromissos e dizer seu "sim" convicto a algo e assumir suas consequências. Ao menor sinal de dificuldade e dor já se dá a desistência de um projeto. Por isso se casa na empolgação e se termina quando já não há prazer. Por isso se começa a trabalhar numa empresa e não se suporta suas regras. Por isso se vai à escola ou faculdade e não se estuda ou se cumpre a disciplina. Agir contra o próprio desejo em favor do dever não é algo valorizado.

Muito da postura austera e ascética, capaz de renuncia em favor de algo maior, como o bem coletivo, foi sustentado pela religião. O barroco imprimiu em parte da cultura um sentimento de culpa, próprio de quem precisa se reconhecer pecador, que garantia o movimento de revisão de vida e mesmo de doação ao próximo. A caridade é um dever do devoto, cuja tradução laica que se encontra na cultura é "retribuir à vida por tudo o que ela concede". Acontece que, com a crise da religião, a caridade foi trocada pela prosperidade e, na queda da mentalidade católica, caiu também o sentimento de dívida ou necessidade de ajudar o próximo. "Ele que trabalhe e lute como eu luto", dizem, sem maior análise de conjuntura e sem perceber o jogo social, aqueles que só pensam no próprio umbigo.

O próximo também é figura que tem perdido o rosto. O outro só há para quem existe um "tu". Todavia, a ênfase na atualidade é sobre o "eu". Na facilidade de aquisição de bens de consumo que as classes baixas brasileiras experimentaram, por exemplo, via-se mães dando um pacote de biscoito para cada filho a fim de que não brigassem, porque dividir não era algo mais que se precisava ensinar. Partilhar tornou-se um problema que levaria ao descentramento do "eu" e consistiria em sofrimento demais para a criança. A aquisição de bens foi confundida com empoderamento e o ter se tornou valor mesmo para os pobres, vide o funk ostentação. Com os ricos a coisa também não foi tão melhor, porque o outro que não pode aportar para o crescimento pessoal também não vale a pena para estar junto. E se um filho, embora desejado (como um bem de consumo), atrapalha a vida, terceiriza-se sua educação e cuidado.

É claro que isso não se passa com todos que compõem as novas gerações, contudo é um fenômeno que se faz notar em grande escala e parece que tende a piorar. Até pouco tempo atrás os movimentos sociais lutavam juntos porque um fortalecia o outro. Agora, a nova geração privatizou as lutas e o movimento negro, por exemplo, não pode falar nada sobre feminismo, a não ser as mulheres negras que o compõem; as mulheres, por sua vez, também não têm direito mais de protestar na causa trans, porque não lhes diz respeito; os sem-teto, então, não têm que falar nada sobre a causa indígena e por aí vai. O argumento é o da ocupação do "lugar de fala". Acontece que, na defesa de tal "lugar", esqueceu-se da solidariedade e empatia e, com isso, houve o enfraquecimento das lutas socias, que se tornaram causas privadas e segmentadas, típico da cultura que não busca alteridade, mas pares. Será que buscam pares ou um espelho? A dúvida paira sobretudo porque há muito "palavrório" e pouca ação.

Migramos para o mundo das ideias ou para o mundo digital das redes sociais porque somos fracos ao ponto de não suportarmos o encontro com o outro e a saída de nós mesmos. Parece que não estamos caminhando bem e temos que reconhecer que fizemos escolhas ruins, que precisamos revisar a vida e voltar atrás. Precisamos assumir o erro e o fracasso. Isso é condição de possibilidade para a felicidade.

Como se tornar um conquistador

Talvez um primeiro passo para lidar com o fracasso e o erro é aprender a rir de si mesmo. Nesse sentido, a comédia é sempre uma ajuda. Segundo o dramaturgo Ben Jonson, o objetivo da comédia é fazer troça "daqueles erros, que todos (...) confessarão rindo-se deles". A comédia Como se tornar um conquistador (Original, How to be a latin lover) trata justamente dos erros de um homem e sua tentativa de retormar a vida cometendo seus mesmos erros. O enredo: um homem mulherengo (Eugenio Derbez) é despejado pela namorada e se vê forçado a voltar a morar com a distante irmã e seu jovem filho, que aparentemente é problemático. Em cartaz no Ponteio Lar Shopping, o filme é uma boa comédia. O conquistar e perder, ganhar e vencer são as dualidades com as quais trabalha o filme.

 

Gilmar Pereira
Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, graduado em Filosofia pelo CES-JF e em Teologia pela FAJE. Apaixonado por arte, cultura, filosofia, religião, psicologia, comunicação, ciências sociais... enfim, um "cara de humanas". Escreve às sextas-feiras.
Comentários
+ Artigos
Instituições Conveniadas