28 Jul 2017 | domtotal.com

A má-fé de quem quer estar certo sem conhecer a verdade

Por honestidade intelectual, cada qual deveria questionar o próprio posicionamento.

Cena de Doroteia, em cartaz no Sesc Palladium
Cena de Doroteia, em cartaz no Sesc Palladium

Por Gilmar Pereira

Eu já deveria ter aprendido, mas ainda insisto em crer na boa vontade das pessoas. Vez ou outra me tomo argumentando em postagens de amigos na web. Com muita frequência vejo compartilhamentos de textos falaciosos, sensacionalistas, equivocados ou mal-intencionados. Penso que quem o faz foi iludido pelo que leu e quer divulgar para o mundo a boa descoberta. Vendo os engodos possíveis no qual ela possa ter caído ou por acreditar que há algo que não tenha sido visto, apresento meu contraponto.

Tenho vários amigos inteligentes e, geralmente, essas discussões são boas. Acabo aprendendo com eles e revejo, inclusive, o argumento inicial que apresentei. Contudo, nem sempre é assim. Algumas pessoas se aferram a determinada opinião que acabam sendo rudes, quando não agressivas. Talvez para elas quando alguém não concorda com sua visão de mundo ou perceba falhas em seus argumentos, este estaria lhes tendo como inferior ou cometendo uma agressão pessoal. Tratam uma conversa que poderia ser promissora para ambos os lados como uma disputa de ego e brigam para ter a última palavra.

Particularmente, busco ter uma postura mais aberta em debates porque posso me equivocar. E isso nem sempre é por virtude, é por vergonha de, caso eu esteja errado, de ficar com “a cara no chão” por evidenciar minha ignorância. Afora isso, é complicado falar de exatidão para o conhecimento científico por conta do chamado problema da indução, mas para falar disso eu deveria evocar o falsificacionismo de Popper e discutir outras coisas sobre ciência que não cabem agora. O importante a ressaltar é que, por honestidade intelectual, cada qual deveria questionar o próprio posicionamento. Como diria Rubem Alves, de maneira bem didática em seu livro sobre Filosofia da Ciência, “Cada cientista consciente deveria lutar contra sua própria teoria. E é isto que o torna uma pessoa capaz de perceber o novo”.

A obstinação em não se questionar pode ser bem descrita no conceito de má-fé, desenvolvido por Sartre, que, em linhas gerais, significa mentir para si mesmo. De modo geral, todos mentimos a nós mesmos porque há uma verdade que não suportamos com facilidade: somos responsáveis por nós mesmos. Como diria Sartre, estamos condenados à liberdade. A existência nos impele a fazer escolhas a todo o momento e mesmo quem opta por não escolher já está escolhendo.  Nas escolhas a pessoa afirma-se no mundo. Em outras palavras, sou aquilo que vou sendo. Aqui surge a angústia da liberdade, porque sou o único responsável por mim. A má-fé entra como o mecanismo que busca camuflar a angústia.

A liberdade e a indeterminação dos indivíduos apontam para a falta de sentido da existência. Caminhamos sem um destino, sem um para onde, mas caminhamos. No muito se pode falar da marcha para a morte, para o fim, e nada além disso. A ausência de sentido pré-determinado é angustiante. Talvez possa se dizer que não há sentido para a vida porque ela é autorreferencial, é sentido em si-mesma, ou que o sentido se constrói. Para falsear o vazio de sentido negamos nossas escolhas pela má-fé. E como estamos nos fazendo, pouco-a-pouco, como seres incompletos e temporais que somos, fugimos do que não somos rumo ao que nunca seremos. Fugimos da incompletude de nossa existência para uma imagem falsa que produzimos de nós e para nós mesmos.

Às vezes não nos questionamos sobre nossas verdades, valores, ideias, opções, porque temos medo de ver ruir os fundamentos nos quais alicerçamos nossa existência. E se perdemos as bases, soçobra toda a estrutura. O que restaria? Podemos suportar o peso da própria insignificância ou da falta de uma teleologia? Podemos assumir nossa própria mediocridade, mesquinhez ou fragilidade? A ignorância é a melhor anestesia, mas não a cura.

Conversão

Algumas pessoas se dão conta do esquema frustrado de vida que levam e buscam redirecionar sua história. Para isso, precisam adotar um novo sistema de sentido. A religião, com frequência, apresenta-se como esse sistema de significação que norteia as novas opções. Acontece que, grande parte dos convertidos, depois de descançado dos vícios e esquemas nos quais vivia, vai retornando paulatinamente à estrutura que tinha antes. Isso porque algumas conversões não passam de autoengano. Não houve uma real ressignificação, mas a adesão a alguns códigos que lhes ajudam a romper com pontos específicos daquilo que não têm mais controle.

Assim a pessoa que não tem medida na bebida, no sexo, na agressividade etc., encontra, na adesão religiosa, a desculpa para seu descontrole - que passa a ser influência do mal - e o motivo para mudar alguns hábitos pelos ensinamentos religiosos. Caso dê errado, a culpa não foi sua. Mas, como todo esquema pesado, logo a conversão dura vai dando suas brechas e, aos poucos, a rotina volta, ainda que modificada, porque as raízes de seus vícios talvez continuem inalteradas.

Uma pessoa chata continua sendo chata dentro ou fora de uma igreja. Se antes alguém era um bêbado agressivo, depois da conversão pode deixar a bebida e continuar com a agressividade, só que moldada pelo discurso religioso e voltada, talvez, para o "Inimigo" ou enquadrada pelo rigorismo puritano. Algumas conversões são só um jeito de fugir de si.

Doroteia

“Dorotéia”, espetáculo dirigido por Jorge Farjalla a partir de texto de Nelson Rodrigues, com Rosamaria Murtinho e Letícia Spiller no elenco, conta a história da ex-prostituta que largou a profissão depois da morte do filho e vai morar na casa de suas primas, três viúvas puritanas e feias condenadas à negação do corpo, dos sentimentos e da sexualidade. Estas mulheres vivem de modo austero, negam o próprio desejo e prazer. Contudo, em sua postura ascética, de aparente renúncia, escondem seu orgulho. Privadas do que chamariam de "mundanidade", continuam longe do que seria o céu. A história fala de algumas nuances da má-fé.

Considerado um dos principais espetáculos da temporada, a ótima montagem apresenta excelentes interpretações na produção em que cenário, luz, figurino e direção musical concorrem positivamente com os destaques.

Local: Sesc Palladium (Av. Augusto de Lima, 420 - Centro, Belo Horizonte)

Sessões:
SEX 28/07/2017 21:00 - 96 MIN - Horário de abertura: 20:00
SAB 29/07/2017 21:00 - 96 MIN - Horário de abertura: 20:00

Informações e vendas: Tudus.

Gilmar Pereira
Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, graduado em Filosofia pelo CES-JF e em Teologia pela FAJE. Apaixonado por arte, cultura, filosofia, religião, psicologia, comunicação, ciências sociais... enfim, um "cara de humanas". Escreve às sextas-feiras.
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