08 Ago 2017 | domtotal.com

O matrimônio: obra de arte

Mesmo em tempos pós-modernos de relações líquidas e laços frágeis, o matrimônio continua a existir e a configurar a vida não apenas de pessoas que professam alguma fé ou religião.

Cena do filme
Cena do filme "Monsieur & Madame Adelman".

Por Maria Clara Bingemer

Grandes livros e filmes sempre nos fazem refletir.  É o que me acontece neste momento após ver o maravilhoso “Monsieur et Madame Adelman”.  Filme com roteiro escrito pelo casal Nicolas Bedos e Doria Tillier, que também atua nos papéis principais. Trata-se de um retrato adequado e excelente sobre o matrimônio nos dias de hoje. 

O início é o fim, ou seja, a morte de Victor Adelman.  Portanto, a narrativa pertence à mulher, a viúva Sarah.  O percurso da vida conjugal de mais de quarenta anos é feito por ela. 

Aos olhos do espectador é a leitura de uma mulher que viveu com um homem por mais de quatro décadas. A narrativa seria outra se fosse feita por Victor, o viúvo?  Provavelmente.  O que aparece claro, no entanto, é que a longa convivência do casal e o amor que inegavelmente viveram não subtrai a presença do mistério e do indecifrável em suas vidas.  A mensagem do filme é que o matrimonio não é algo simples ou fácil de ser descrito.  Não se trata de um contrato entre duas pessoas que se gostaram e decidiram construir a vida juntos. É mais que isso e vai muito além. 

O Papa Francisco, em sua exortação pós-sinodal “Amoris Laetitia”, usa um sem número de palavras para descrever as atitudes humanas que devem estar presentes em um matrimônio: paciência, humildade, serviço, amabilidade, desprendimento, perdão.  Mas igualmente alegria, confiança, gozo, esperança, tolerância.  Trata-se nada mais nada menos de pôr em comum tudo que se tem e se é a vida toda, sem agendas escondidas ou planos B ou secretos.  Nisso está a beleza e, ao mesmo tempo, o desafio. 

O casal Adelman era, sem dúvida, marcado pela alegria.  Em uma de suas crises, Victor se queixa de que o que mais sente falta em Sarah é que ela não ri mais nem o faz rir.  Ele morre de nostalgia daquele riso dela e dele; dele porque provocado por ela e vice-versa.  Para Victor, a beleza reside naquele riso, naquele prazer ridente de olhar a esposa que naquele momento, por diversos motivos, havia se transformado em alguém triste e distante.

O riso renasce e o casal vai em frente.  Outros problemas, mais graves, surgem.  Mas vão sendo superados.  Às vezes com meios que não nos convenceriam a muitos de nós.  A vida a dois segue. E a morte de um dos cônjuges vai desvelar, enfim, parte do mistério dos Adelman.  Não a totalidade, mas uma parte importante.  Um mistério que é totalmente desvendável continua sendo mistério?

Quando se fala de relações entre pessoas - amizade, amor erótico, amor paternal, maternal, filial, enfim toda a gama que a humanidade inventou para expressar seu apego, afeto, cuidado pelo outro que, diferente de mim, faz emergir energias e potencialidades que eu desconhecia e ignorava, trata-se de mistério.

O casal Adelman teve um longo tempo para desvendar seu recíproco mistério. E deixa para os espectadores que receberam sua narrativa alguma curiosidade, interrogação, perplexidade. Por isso, o mistério da vida a dois, do amor, do matrimônio, pode continuar a ser pensado, explorado, expresso. 

Na verdade, o que o belíssimo filme de Bedos e Tillier traz é a revelação de que, mesmo em tempos pós-modernos de relações líquidas e laços frágeis, o matrimônio continua a existir e a configurar a vida não apenas de pessoas que professam alguma fé ou religião, mas igualmente não crentes, agnósticos e secularizados, como eles.  

Talvez a definição do matrimônio como obra de arte seja uma das mais felizes, sobretudo quando é dada por um casal que está junto há 50 anos: a psicanalista búlgara Julia Kristeva e o escritor francês Philippe Sollers. Segundo ambos declaram em quatro diálogos que foram publicados no livro “Le mariage comme un des beaux arts” (O matrimônio como uma das belas artes), o homem e a mulher são estrangeiros um para o outro.  O casal que assume a liberdade desses dois estrangeiros pode tornar-se um campo de batalha.  Daí a necessidade de harmonizar-se.  A fidelidade é uma espécie de harmonização da condição de estrangeiros.  Se se permite ao outro ser tão estrangeiro quanto a si mesmo, a harmonia acontece. 

Nessa arte de conviver, que o poeta maior Drummond classificava como a maior das viagens, há todo um trabalho fino e artístico a realizar. Por isso, o matrimônio nunca acaba de construir-se, de esculpir-se, de retocar-se.  Como acontece com as obras de arte que, mesmo tendo saído das mãos do artista, podem sempre ser retocadas, refeitas pela interpretação, leitura, contemplação, pelas experiências que provocam.

Fazendo a experiência bela e desafiante de estar casada há quarenta e oito anos, posso atestar que o mistério nosso de cada dia desafia a criatividade e a capacidade de reinventar-se.  É importante não perder a capacidade de surpreender-se, admirar-se, rever-se, recomeçar, retocar o tom que esmaeceu, refinar o som que perdeu o rumo da melodia.  E tocar juntos o grande instrumento da vida, harmonizando risos e lágrimas, mágoas e alegrias, prazer e aridez, tristezas e euforias.  E rir, rir muito, em todas as gamas que vão do sorriso silencioso à gargalhada sonora.  

Assim se responde ao dom infinito do mistério do outro que convida a embarcar na louca aventura da convivência, do amor compartilhado, da vida a dois, da amizade até o fim da vida. Como os casais Adelman e Kristeva/Sollers.  E tantos, tantos outros que vão colaborando com pinceladas, toques, escritos, pensamentos, emoções,  essa grande obra de arte que é a união entre o homem e a mulher, para crescer sempre mais no amor, na esperança e suportar juntos o peso e a beleza da vida. 

Maria Clara Bingemer
é teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio. É autora de diversos livros, entre eles, ¿Un rostro para Dios?, de 2008, e A globalização e os jesuítas, de 2007. Escreveu também vários artigos no campo da Teologia.
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