10 Ago 2017 | domtotal.com

Tristes trópicos cada vez mais tristes

Na dança do rabo preso, poucos pagariam pra ver o chefe no banco dos réus.

No sistema político brasileiro, os partidos, na sua maioria, funcionam como quadrilhas organizadas na defesa do poder pelo poder.
No sistema político brasileiro, os partidos, na sua maioria, funcionam como quadrilhas organizadas na defesa do poder pelo poder. (Reprodução)

Por Jorge Fernando dos Santos

Aqueles que se escandalizam com a atual situação política do país certamente não conhecem a nossa história. Basta se debruçar sobre a biografia de personagens como Getúlio Vargas, por exemplo, para descobrir que as mazelas apenas se repetem.

As causas do problema estão nas nossas origens e no sistema de colonização do país. Enquanto a América do Norte foi colonizada por famílias exiladas que lá chegaram para tomar conta da terra, o Brasil foi desde o início saqueado por aventureiros a serviço da coroa portuguesa.

A primeira riqueza natural a ser explorada e praticamente extinta foi o pau brasil. Aliás, o termo “brasileiro” refere-se ao contrabandista dessa madeira tão cobiçada. Nenhuma outra nacionalidade é designada por palavra com sufixo “eiro”, que se refere a profissões. Portanto, nosso mal é de raiz.

O Brasil já era uma terra chuvosa e hereditária – como diria Tom Jobim –, quando aqui chegou a família real, fugindo das tropas napoleônicas. Foi a única vez na história da humanidade que uma corte se transferiu para a colônia. Somente assim nos foi permitido editar o primeiro jornal e ter acesso a uma biblioteca e a uma agência bancária.

Herança lusitana

Se Dom João VI contribuiu para nos civilizar – se é que somos de fato uma civilização –, também nos trouxe a nobreza inepta e preguiçosa de Lisboa. Para agradar seus protegidos, distribuiu terras, títulos, cartórios e outras sinecuras. Estavam instituídos o nepotismo e a burocracia, que ajudaram a ampliar a corrupção.

A proclamação da independência foi mero teatro. Foi feita pelo filho do rei, que ao retornar a Portugal o deixara para tomar conta da casa. Dom Pedro I era um homem de poucas qualidades morais. Boêmio e mulherengo, ele chegou a provocar um abordo na esposa ao espancá-la durante uma briga.

Seu filho, ao contrário, seria um sujeito correto. Criado por José Bonifácio, Dom Pedro II era culto, falava várias línguas, viajava com o dinheiro do próprio bolso e se interessava pelas ciências. Foi o primeiro governante do mundo a falar ao telefone, apreciava as artes e morava numa casa que nunca teve o nome de palácio.

A proclamação da República foi um golpe de estado da oligarquia, insatisfeita com o imperador. Isso se deu em 1889, dois anos após a abolição da escravatura. Abolição na qual os ex-escravos não receberam terras nem indenização – ao contrário dos antigos senhores.

Uma falsa República

Desde o início da República, os militares que a proclamaram se arvoraram donos do poder. Tanto que o primeiro marechal empossado na presidência foi derrubado pelo sucessor, colega de farda. De lá para cá, sucedeu-se uma série de quarteladas e mandatos presidenciais forjados na fraude e no compadrio da elite econômica.

Raros presidentes conseguiram chegar ao fim do mandato. Depois da política do café com leite, Getúlio assumiu o poder como revolucionário, instituiu o Estado Novo e se tornou o maior ditador da nossa história. Aqueles que o ajudaram, também ajudaram a depô-lo e, alguns anos depois, apoiaram sua volta ao poder.

Getúlio foi o paradoxo em pessoa. O ditador foi responsável pela morte de centenas de opositores, de comunistas a liberais. Copiou a Carta del Lavoro de Mussolini, criando a CLT e apelegando sindicatos; dividiu sua representação política entre dois partidos (o PSD dos ricos e o PTB, dos pobres) e morreu como herói democrático, em 1954.

Dez anos depois do suicídio que abalou o país, veio o golpe civil-militar que apeou do poder seu herdeiro político, João Goulart. Instituída com a promessa de durar pouco, tempo suficiente para colocar o país em ordem, a “redentora” durou vinte anos e eliminou mais de 400 adversários.  

Operação Lava-Jato

No conchavo das elites, em vez de eleições diretas, opositores e situacionistas uniram forças para eleger Tancredo e lançar a Nova República. Com a morte do eleito, assumiu o vice Sarney, antigo aliado da ditadura, principal responsável pela miséria do Maranhão.
De lá para cá, foram muitos os atropelos. Primeiro presidente eleito nas urnas depois da abertura política, Collor renunciou ao cargo pouco antes da encenação do impeachment no Congresso Nacional. O vice Itamar assumiu seu lugar e criou o Plano Real, que eliminou a inflação galopante.

FHC se arvorou pai da criança e governou o país por dois mandatos, abrindo caminho para Lula. Na verdade, PT e PSDB são braços de um mesmo sistema, ambos com discursos de esquerda ou centro-esquerda, mas com a prática assistencialista de pai dos pobres e mãe dos ricos – herança maldita de Getúlio.

A novidade é a Operação Lava-Jato e o desempenho do juiz Sérgio Moro, que surpreendeu a todos. Nunca antes na história deste país a Justiça havia colocado políticos e empresários corruptos no banco dos réus. Daí o conchavo dos investigados contra o Ministério Público e a Polícia Federal. 

Dança do rabo preso

No sistema político brasileiro, os partidos, na sua maioria, funcionam como quadrilhas organizadas na defesa do poder pelo poder. Lula passou dois mandatos falando mal de FHC sem nunca investigar seu governo. No fundo, são camaradas e usam os mesmos mecanismos para alcançar objetivos.

As pedaladas fiscais foram o motivo jurídico de sua queda, mas, na verdade, a ex-presidente Dilma perdeu o apoio do PMDB por não ter conseguido frear a Lava-Jato. Como prêmio de consolação, mantiveram sua elegibilidade em detrimento da Constituição Federal.  

O PMDB deixou de ser o pino da balança entre PT e PSDB para assumir o controle do sistema, mas ninguém contava com as denúncias de Joesley Batista contra Temer. Encurralado, o presidente comprou parlamentares para que votassem a seu favor. Mas nem precisava! Na dança do rabo preso, poucos pagariam pra ver o chefe no banco dos réus.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 43 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual Editora), Prêmio Guimarães Rosa em 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ em 2003; Alguém tem que ficar no gol (Edições SM), finalista do Prêmio Jabuti em 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração Editorial), finalista do Prêmio da APCA em 2015.
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