11 Ago 2017 | domtotal.com

A aventura de olhar

Se os olhos são janelas da alma, são janelas envidraçadas onde vemos quem está lá dentro na sobreposição de nossa própria imagem.

Outro em si
Outro em si

Por Gilmar Pereira

Ainda me lembro da frase repetida à exaustão por um professor no início de minha graduação em Filosofia, pelo idos de 2005: “Eu sou no olhar que o outro me devolve”. A frase, um tanto hermética, vem me acompanhando até hoje.

Essa coisa do “outro” e do olhar mexeram comigo. Sinto que me reconheço no olhar que me devolvem. Se os olhos são janelas da alma, são janelas envidraçadas onde vemos quem está lá dentro na sobreposição de nossa própria imagem. Sim, ele me olha, mas os sentimentos que me vêm não advém do seu olhar. Às vezes me sinto exposto, julgado, amado, analisado. Mas, antes disso, sinto que há algo frágil que não quer ser exposto, que eu mesmo me condeno, que estou carente, que não quero errar. No olhar do outro eu vejo a mim e me dou conta de como me vejo e sinto.

Não é só isso. O outro me põe um limite. Não posso fazer dele minha extensão. É aí que entra a relação, quando há dois (ou mais), até quando me relaciono comigo. Só posso fazê-lo se me torno um outro para mim, se me desdobro  sobre mim mesmo. O outro é importante até para que eu me funde. Se uma pessoa não tivesse os 5 sentidos não conseguiria desenvolver sequer a percepção de si. Um bebê, em seu processo de desenvolvimento, adquire a consciência de si a partir do momento que descobre a exitencia do outro, quando começa a receber os “nãos” da vida. De modo filosófico se diz que “O eu gera o não-eu e o não-eu gera o eu”.

No limite que o outro me põe, passo a conhecer meus contornos e o tamanho de minha extensão. De tal forma que, constantemente, tentamos invadir o espaço alheio para ampliar nossos limites. Às vezes, queremos comandar a vontade de quem quer que seja, estendendo nosso desejo ao mundo. Outras, queremos invadir os corpos de outrem e devorá-los para fazê-los nossos, expandir nosso ser pelo deles. Digladiam amor, poder, controle, desejo, sexo, carinho, cuidado, manipulação, doação, serviço, medo, coragem, serviço, servidão.

Daí as relações de afeto serem sempre conflituosas, porque o limite imposto expõe nossa finitude e falta. E não queremos saber do nosso fim. Mas o fim/limite imposto pelo outro também é o ponto onde começo. Aceitar o limite permite que reconciliemos com nosso próprio ser. E só assim somos bem-vindos em casa alheia. Só assim podemos ser recebidos nos outros, em sua corporeidade, porque já não seremos uma ameaça de usurpação. Quem está contente em si pode fazer morada na casa alheia e receber o outro em si.

Outro em si

O espetáculo “Outro em si” explora a resistência e a impregnação do que é estrangeiro para nós mesmos e as possibilidades de outrar-se, simbolicamente tornar-se outro. Na construção de nós mesmos vamos incorporando de forma marcante figuras que ajudaram a construir o nosso caráter. Sempre existe o "estrangeiro nos acompanhando". Ele habita em nós, é a face oculta da nossa identidade.

Cia Sesc de Dança
Concepção e coreografia Fernanda Lippi / Direção Andre Semenza / Assistente de coreografia Sarah Storer / Desenho de luz Guilherme Bonfanti / Figurinista: Philmore Clague / Mixagem Trilha Sonora: Andre Semenza / Videos: Maverick Motion / Fotografia: Alessandra Duarte

Informações
Dias 26 e 27 de Agosto - sábado às 20h30, Domingo às 19h. Local: SESC Palladium - Rua Rio de Janeiro, 1046, Belo Horizonte.

Ingressos

OUTRO EM SI - premier 26/08/2017 from Zikzira Physical Theatre on Vimeo.

Gilmar Pereira
Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, graduado em Filosofia pelo CES-JF e em Teologia pela FAJE. Apaixonado por arte, cultura, filosofia, religião, psicologia, comunicação, ciências sociais... enfim, um "cara de humanas". Escreve às sextas-feiras.
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