03 Set 2017 | domtotal.com

Saber se rever para saber viver

Dar-se conta dos sentimentos, suas origens e consequências permite que se decida sobre o próprio agir.

Igreja Nossa Senhora do Ó em Sabará.
Igreja Nossa Senhora do Ó em Sabará. (Gilmar Pereira)

Por Gilmar Pereira

Há modelos de vida que não nos ajudam e às vezes precisam ser interrompidos. Talvez essa seja a tarefa mais difícil no processo de reinventar-se. Toda mudança de vida depende de rupturas e frequentemente nos vemos apegados àquilo que nos atrapalha a viver plenamente.

Talvez você se sinta cansado da rotina que está vivendo e há inúmeras coisas que não são fáceis de deixar. Um dos motivos do cansaço talvez seja o tempo em que se demora no trânsito ou o tipo de trabalho exercido. Bem, não dá para achar um lugar próximo ao trabalho ou estudo que caiba no próprio orçamento de maneira fácil ou mesmo mudar de emprego nem sempre é factível – ainda mais em tempos de crise. Contudo, há mais coisas que devem ser colocadas na balança.

Parte de um cansaço não está no desgaste do corpo, mas pode estar na mente ou mesmo no afeto. Os três não se separam e, por isso, quando uma dimensão se afeta, as outras também sofrem. Assim, há de se descobrir o que rouba a energia. Para isso, há de se perceber os sentimentos que ficam daquilo que foi vivido. Místicos como Inácio de Loyola propunham uma revisão por volta do meio dia e outra antes de dormir, repassando todos os momentos do dia e buscando estar atento aos sentimentos mais fortes, de onde vieram e para onde apontam. Vale, nesse sentido, perguntar-se também sobre o que mais se fez. Isso porque costuma-se não contabilizar algumas atividades como quantas vezes se ficou ao celular. O que rouba a energia pode não ser aquilo para o qual se dá muita importância, mas que, de alguma forma, marca o dia.

Dar-se conta dos sentimentos, suas origens e consequências permite que se decida sobre o próprio agir, sobretudo escolher aquilo com o que se deve romper. A isso chamamos decisão. Decidir é romper, estabelecer um divisor de águas. Para tanto, um marco referencial deve ser estabelecido: que pessoa quero ser? É por isso que os místicos cristãos voltam seu olhar à figura de Jesus e, em suas orações, vão se imaginando nas cenas do Evangelho, pois aprendem daquilo que contemplam. Ora, talvez você não acredite em Deus, mas irá perceber a lógica disso. Feuerbach, que é o pai do ateísmo moderno, entendia que Deus era a projeção daquilo que o homem tem de melhor e que potencializa numa figura transcendente. Creia você em Deus ou não e que Jesus era Deus ou não, a contemplação do ideal ao qual se quer chegar permite que o atual seja moldado.

Como diz o velho ditado, “até cachorro tem a cara do dono”. De maneira mais solene podemos dizer que você se torna semelhante àquilo que contempla. Daí a necessidade de filtros. Você pode consumir tudo, mas nem tudo lhe convém. Às vezes o mal não está nem no que se consome, mas na quantidade, seja na falta ou no excesso. Aprenda a filtrar o que ouve, o que vê, o que lê e até mesmo o que toca. Quem nunca sentiu certo incômodo em determinados ambientes ou em contato com determinadas pessoas? Não importa qual seja a razão – talvez um sinal inconsciente captado pelo corpo –, vale a pena dar ouvido ao “sexto sentido”.

Como alguns males podem estar na falta, há de se considerar também as estruturas de apoio ou mecanismos “salvadores”, aquilo que é necessário resguardar para se estar bem. Há quem tenha necessidade existencial de ler bons livros e ficar mais sozinho. Portanto, precisa reservar tais tempos, o que levará a deixar o telefone desligado ou no modo “não perturbe” (esse recurso é muito bom e pouco utilizado por ser desconhecido) por algum tempo. Outros carecem de ficar algum tempo em contato com a natureza e, talvez, precisem ir para um parque uma vez por semana. Essas coisas possibilitam aos que delas necessitam uma boa dose de higiene mental. Quando se salvam esses tempos, são eles que nos salvam.

Outro ponto a se estar atento na pergunta sobre o sentimento é o que o causa. Começar a fazer exercícios físicos pode ser demasiado cansativo no início, mas pode ser algo compensador depois. Quem está em ritmos ruins irá considerar mau aquilo que é bom. Daí a importância de se ter claro os motivos, de onde se vem, e os objetivos, para onde se vai. De posse do que lhe faz bem e mal, a pessoa pode decidir o que quer para si.

Hora de se examinar! Como está sua vida? O tem lhe movido? Para onde isso está lhe levando? Aonde você quer chegar? Ou melhor, que pessoa você quer ser? O que precisa ser cortado? O que precisa ser cultivado? Dê-se um tempo para se pensar.

Sabará

Uma opção para quem quer descansar um pouco e ir para algum ambiente onde possa pensar um pouco mais na vida são as cidades do interior mineiro. Quando se fala em Minas Gerais o imaginário já se reporta para Ouro Preto, Mariana e Tiradentes. Entretanto, ao lado da capital mineira e nem tanto explorada em seu potencial turístico está a cidade de Sabará, lugar que esconde diversos tesouros. Lugar de gente hospitaleira, a vizinha de Belo Horizonte reúne bons restaurantes e um belo conjunto arquitetônico, composto pelos casarios antigos e igrejas históricas. Entre os templos que merecem destaque está a pequena capela dedicada a Nossa Senhora do Ó.

Construída entre 1717 e 1720, a igreja constitui um raro exemplar de arquitetura barroca em sua primeira fase do Estado. O templo, simples por fora, é extremamente requintado por dentro, levando fortes características orientais, possivelmente advindas de Macau, que também fora colônia portuguesa.  O historiador e arquiteto Sylvio de Vasconcellos diz que ela é "o próprio ouro das Minas. Por fora, cascalho rude; por dentro o mais valioso metal. Por fora posta em modéstias; por dentro esplendendo em belezas".

Lugares assim também são metáforas de nosso interior. Contemplar a poesia de certas paisagens contribui para que olhemos o nosso interior e possamos melhor dispor a vida. Visitar em lugares com outros ritmos, menos acelerados do que os comuns aos grandes centros urbanos, também contribuem para que possamos entender os nossos próprios ritmos. Conhecer a história e cultura do nosso povo também permite que nos situemos em nossas próprias. Viajar também é cuida de si.

Gilmar Pereira
Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, graduado em Filosofia pelo CES-JF e em Teologia pela FAJE. Apaixonado por arte, cultura, filosofia, religião, psicologia, comunicação, ciências sociais... enfim, um "cara de humanas". Escreve às sextas-feiras.
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