29 Set 2017 | domtotal.com

A escola sem partido está em plena vigência!

Este nome é um disfarce para dizer que a escola não pode permitir a crítica transformadora da realidade.

O partido de nossas escolas já é o conservador, é isso que temos que mudar.
O partido de nossas escolas já é o conservador, é isso que temos que mudar. (Reprodução)

Por Marcel Farah

É desesperador ver o quanto se pode retroceder em tão pouco tempo a ponto de termos a esperança das medidas aprovadas no Plano Nacional de Educação, que eram ainda tímidas pra termos uma educação crítica e de qualidade, suplantada pelo golpe de 2016 e vermos sua substituição pelo que se chama de “escola sem partido”.

Este nome é um disfarce para dizer que a escola não pode permitir a crítica transformadora da realidade, pois isso seria partidarizar a mesma. Sendo permitido somente que se reproduza o que existe hoje, conservando as coisas como estão, e abdicando da educação para outra instituição, a Família.

Nem a Família é tão conservadora quanto querem os “sem partido”. Por outro lado, se é sem os partidos que querem transformar a realidade, por achá-la injusta, é com os partidos que querem manter as coisas como estão, conservá-las. Daí o nome de partidos conservadores. Portanto, o melhor nome do movimento que quer amordaçar professoras e professores, e a própria Escola, alegando doutrinação (como se não fizessem o mesmo) deveria chamar escola sem o partido dos outros.

Pois bem, a boa notícia para os conservadores é que há algum tempo tudo isso já foi providenciado e a escola sem partido é a regra. Exceção no sistema educacional brasileiro é termos escolas como locais de produção de saberes críticos voltados para a transformação da realidade que a cerca. Educando para a cidadania mais do que para o adestramento do mercado e dos “bons costumes”.

Desde pelo menos a reforma educacional imposta pela ditadura militar que censurou a crítica e separou na prática a educação da cultura, nossas escolas sucumbiram a zumbizar por ai, sem rumo, cumprindo as regras ditadas pela hegemonia, pelo conservadorismo e pelo mercado.

A divisão clássica da Escola em ensino técnico/manual para as classes empobrecidas e ensino intelectual para as classes dominantes é uma das principais marcas deste processo conservador. Como é denunciado na charge de Claudius Ceccon no antigo livrinho “Cuidado Escola” organizado por Paulo Freire, abaixo.

Processo que não foi revertido pelos governos petistas, infelizmente. Pelo contrário, o MEC foi utilizado como moeda de troca junto a grandes conglomerados empresariais para garantir apoio ao governo desde a ação penal 470 em 2005, pelo que se tem notícia.
Hoje a realidade é essa, temos professoras e professores mal remunerados (principalmente no ensino privado); adesão do sistema educacional ao mercado; perseguições políticas sutis, porém eficazes; terceirizações e privatizações do sistema público por todos os lados, fazendo prevalecer a perspectiva de educação como mercadoria. E como resultado principal uma educação chata, desinteressante, inútil às vezes; e como produto pessoas com receio de questionar, com desejo de se encaixar no sistema para viver bem, mesmo que a injustiça esteja à sua porta.

O partido de nossas escolas já é o conservador, é isso que temos que mudar.

Marcel Farah
Educador Popular
Comentários
+ Artigos
Instituições Conveniadas