12 Out 2017 | domtotal.com

O Nobel em boas mãos

Pelo talento do premiado de 2017, podemos dizer, sem sombra de dúvidas, que o Nobel está novamente em boas mãos.

Ishiguro é naturalizado inglês, mas nasceu em Nagasaki, no Japão, em 1954
Ishiguro é naturalizado inglês, mas nasceu em Nagasaki, no Japão, em 1954 (Reprodução)

Por Jorge Fernando dos Santos

A Academia Sueca acaba de conceder o Prêmio Nobel de Literatura ao romancista Kazuo Ishiguro, um dos grandes escritores da atualidade. O favorito era Ngugi Wa Thiong’o, conhecido militante dos direitos civis no Quênia. Baseada em critérios exclusivamente literários, a escolha foi acertada, tanto que não causou polêmica como no ano passado, quando o vencedor foi o compositor americano Bob Dylan. 

Ishiguro é naturalizado inglês, mas nasceu em Nagasaki, no Japão, em 1954, tendo se mudado para a Inglaterra com a família, seis anos depois. É um autor que procura privilegiar a qualidade e não a quantidade de escritos. Entre os sete romances que publicou até hoje, o mais conhecido se chama “The remains of the day”, contemplado com o Booker Prize de 1989 – o maior prêmio literário da Inglaterra. 

Traduzido no Brasil por Eliana Sabino, “Os vestígios do dia” foi adaptado para o cinema em 1994 com direção de James Ivory e obteve duas indicações ao Oscar (Melhor filme e melhor ator). O elenco reuniu Anthony Hopkins, Emma Thompson, Christopher Reeve e Hugh Grant. A história se passa na década de 1930 e é sobre um mordomo que segue à risca os ditames da profissão que tão bem caracteriza o modo de ser dos ingleses.

James Stevens (Hopkins, no cinema) trabalha para Lorde Darlington e é tão dedicado a ele que não interrompe as tarefas nem mesmo quando lhe avisam que o pai – que também foi mordomo e lhe ensinou a ser um bom profissional – está morrendo numa das dependências da mansão. Stevens também ignora a simpatia do patrão pelo nazismo e sequer pensa ou fala no assunto, como se isso não lhe dissesse respeito.

Espírito vitoriano

“Os vestígios do dia” é talvez uma das histórias mais inglesas da segunda metade do século XX. Ainda que nascido no Japão, Ishiguro captou como poucos o espírito vitoriano que caracterizaria a Inglaterra mesmo durante o reinado de Elizabeth II. A fidelidade canina do mordomo por seu amo é algo tão inacreditável que chega a ser patética. Contudo, independentemente do julgamento do leitor/espectador, o fato é que James Stevens é um personagem inesquecível. 

O romance que tão bem funcionou no cinema fala da servidão humana e do modo como o trabalho e a dedicação podem alienar um homem até mesmo no que se refere à sua própria vida. Em sua disciplina e dedicação a Lorde Darlington, Stevens abdica não apenas da vida pessoal, mas do amor que sente pela subalterna magistralmente interpretada por Emma Thompson no cinema.
 
Ishiguro estudou nas universidades de Kent e East Anglia e estreou na literatura com outro romance, intitulado “Uma pálida visão dos montes”. Esse livro lhe deu o Winifred Hotby Prize da Royal Society of Literature. Nele já se notava a força de um escritor de raro talento, conhecedor da alma humana, especialmente britânica. Sua narrativa é densa, mas fluente, daquelas que prendem o leitor já nos primeiros parágrafos. 

Se no ano passado o Nobel foi para o popularíssimo Bob Dylan, bom lembrar que em 2015 a premiada foi Svetlana Alexievich. Até então inédita no Brasil, a autora de 67 anos nasceu na Bielorússia e a premiação deveu-se muito mais à sua luta política em favor da democracia. Já no ano anterior o prêmio fora concedido ao francês Patrick Modiano. Pelo talento do premiado de 2017, podemos dizer, sem sombra de dúvidas, que o Nobel está novamente em boas mãos.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 43 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual Editora), Prêmio Guimarães Rosa em 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ em 2003; Alguém tem que ficar no gol (Edições SM), finalista do Prêmio Jabuti em 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração Editorial), finalista do Prêmio da APCA em 2015.
Comentários
+ Artigos
Instituições Conveniadas