10 Out 2017 | domtotal.com

Os jogos vorazes de Las Vegas


A tragédia de Vegas traz de volta a conflitiva questão da livre venda de armas nos Estados Unidos.  
A tragédia de Vegas traz de volta a conflitiva questão da livre venda de armas nos Estados Unidos.   (Reuters)

Por Maria Clara Bingemer

Vai-se a Las Vegas para jogar, curtir resorts, ou para namorar e casar-se com rapidez, em clima de excitação.  Ou para matar...e para morrer.  Foi isso que o mundo presenciou no último dia primeiro, quando 58 pessoas foram mortas e mais de 500 ficaram feridas, muitas gravemente, naquele que já é considerado o maior ataque a tiros da história dos Estados Unidos. 

O Estado Islâmico foi imediatamente cogitado e assumiu a autoria, parece. Mas até agora as investigações apontam em outra direção. O atirador – que se matou em seguida, antes da chegada das forças de segurança – era um aparentemente pacato senhor de 64 anos, que tinha uma casa perto dali. Ia frequentemente a Las Vegas porque, segundo informações, gostava de jogar.

Pelo que se descobriu após a tragédia, gostava também de armas. Foram encontradas dez armas no quarto de hotel onde se hospedava, ao lado de seu cadáver. Com várias delas, montadas após quebrar as janelas do quarto, ele atirou do 32º andar do famoso cassino e resort Mandalay Bay contra uma multidão que se encontrava em um festival de música country, em frente ao hotel. 

O irmão de Stephen Paddock – era esse o nome do atirador – mostrou-se surpreso e consternado.  Segundo ele, o irmão sempre fora uma pessoa pacífica e reservada.  Solitário, não tinha muitos amigos.  Tinha uma namorada australiana, que no momento da chacina encontrava-se nas Filipinas.

E de novo nos vemos diante do absurdo, da falta de sentido mais absoluta.  Por quê?  A violência é algo tão irracional.  Não havia um motivo, uma provocação, nada a que ou a quem Paddock tivesse que revidar, contra-atacar, nada.  Apenas uma multidão de pessoas, muitos deles jovens, que ouvia pacificamente um show, cantando e dançando.  

De repente, já no final do show, ouviu-se uma saraivada de tiros disparados por um homem louco que gostava de jogar com dados, com cartas e... com armas. E resolveu jogar na vida real, descarregando o vazio de sua vida na multidão inocente. 

A tragédia traz de volta a conflitiva questão da livre venda de armas nos Estados Unidos.  Venda e porte livre.  Qualquer cidadão pode entrar em uma loja de armas e comprar quantas quiser.  Segundo as investigações da polícia, Paddock havia comprado três em sua última visita a um desses estabelecimentos que vendem brinquedos para jogos vorazes e letais. 

Comprou-os e levou-os, além dos outros que já possuía, dos quais dez foram encontrados junto a seu corpo.  Como não chama sequer a atenção da recepção de um grande hotel o fato de um hóspede entrar carregado de malas para passar apenas três dias?  Como não há sequer uma revista em sua bagagem ou pelo menos uma vigilância redobrada sobre sua pessoa?

Com tantos episódios violentos como esta matança em Las Vegas já acontecidos no país, todo lugar público deveria ter vigilância mais rigorosa para impedir que pessoas como Stephen Paddock pudessem transitar livremente com seu arsenal bélico e depois atirar contra centenas de inocentes.

Mas o país está muito ocupado caçando migrantes teoricamente ilegais que ali têm família e trabalham duramente para se sustentar.  Ou discutindo com o ditador insano da Coreia do Norte, para ver quem tem mais mísseis e espalha mais medo na humanidade.  

Enquanto isso, os jogos vorazes internos continuam.  E inocentes são atingidos e mortos.  Surpreendidos em seu lazer despreocupado por armas que ferem e matam, levadas na volumosa bagagem de Paddock quando se hospedou no resort. 

Falando ao Congresso estadunidense em 2015, o Papa Francisco alertou para o conteúdo demoníaco da venda de armas que lava dinheiro com sangue. Exortou os congressistas a encontrarem uma solução definitiva para acabar com isso.  Parece que suas palavras, apesar de aplaudidas de pé com entusiasmo, não encontraram nenhum eco na concretude da realidade.  

As armas continuam circulando, manipuladas por qualquer pessoa, até mesmo jovens e crianças.  E as tragédias continuam acontecendo em vários pontos do país: escolas, universidades, shows musicais e outros lugares  destinados à vida e à alegria.  E a qualquer momento o tédio, a falta de sentido para a vida, o vazio existencial explodem na forma de tiros, ceifando vidas cegamente. 

Hoje, Vegas chora seus mortos, como antes o fizeram Columbine; Blacks Burg, Virginia; Newton, Connecticut; Orlando, Flórida.  E outros e outros.  Todo lugar é lugar: cinema, escola, universidade, discoteca, ceia de natal etc. etc. Em todos esses espaços, vidas foram interrompidas, perdas foram choradas, sangue foi derramado.

Às vezes os criminosos deixam explicações, outras não.  Paddock não deixou.  Pelo menos até agora nada foi encontrado.  O silêncio onde ele jaz pesará para sempre sobre a Las Vegas feita de luzes artificiais, resorts e cassinos.  As armas do assassino, recolhidas, serão provavelmente usadas por outros, que por sua vez poderão em um dia de depressão ou fúria usá-las contra inocentes.  A roda da violência vai girar novamente.  Até que um governo responsável tome medidas sérias para cortar sua espiral, vetando o livre porte de armas.

Violência só gera violência.  Levar a violência no bolso, ou na mala, ou nas mãos, não pode dar bom resultado. Porque somos seres imperfeitos e a sociedade onde vivemos nos desequilibra e nos faz perder a razão.  É muito perigoso dispormos de instrumentos letais para descarregar nossos demônios interiores sobre nossos semelhantes. A lei tem o dever de pelo menos coibir nossos atos insensatos, já que não tem o poder de curar nossas feridas interiores.  Sobre essas, só o encontro, o diálogo e o amor têm poder.  Pelo visto, não chegaram a tempo de sanar o coração em carne viva de Stephen Paddock.

Maria Clara Bingemer
é teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio. É autora de diversos livros, entre eles, ¿Un rostro para Dios?, de 2008, e A globalização e os jesuítas, de 2007. Escreveu também vários artigos no campo da Teologia.
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