14 Nov 2017 | domtotal.com

Quem tem medo do pensamento?

Pensar é uma atividade perigosa e arriscada.

Judith Butler é uma das maiores, senão a maior autoridade sobre teoria de gênero no mundo.
Judith Butler é uma das maiores, senão a maior autoridade sobre teoria de gênero no mundo. (Reprodução)

Por Maria Clara Bingemer

Atribui-se a Melanie Klein, psicanalista austríaca conhecida como pós-freudiana, a afirmação de que quem come do fruto do conhecimento é sempre expulso de algum paraíso. Para a pioneira e criadora da psicanálise em crianças, o pensamento é algo tão fundamental para o ser humano e tão complexo que não é tão somente uma atividade intelectual, mas totalizante e vital. 

Por isso mesmo, pensar é uma atividade perigosa e arriscada. Mobiliza não apenas a mente e o raciocínio, mas os afetos, as emoções, deixando emergir novas sínteses elaboradas a partir da reflexão sobre experiências vividas na crueza do encontro com a própria humanidade e a diferença do outro. 

Simone Weil, filósofa e mística francesa, em sua experiência de trabalho na fábrica como condição prévia para pensar as condições do trabalho moderno, deu-se conta de que ao longo da semana e do duro trabalho nos fornos da indústria metalúrgica francesa, sua capacidade de pensar se atrofiava. Durante o fim de semana, os pensamentos voltavam dispersos para na segunda feira sofrerem novo golpe e enfraquecerem-se mais. Concluiu, então, que toda pessoa submetida àquele ritmo sem uma interrupção que lhe permitisse restaurar-se acabaria despojada de sua humanidade e transformada em uma besta de carga. 

Weil percebeu que o acesso ao conhecimento impediria que os operários fossem expulsos da vida digna que um trabalho não escravo poderia proporcionar-lhes, dando-lhes direitos e condições decentes de existência.  Por isso, era preciso impossibilitar-lhes o conhecimento ou reduzi-lo ao mínimo, a fim de que as portas da vida em plenitude não lhes fossem abertas. Se começassem a pensar, chegariam à conclusão de que as fábricas modernas os transformavam em coisas e se rebelariam sobre suas condições de vida.

Todas essas reflexões me ocorrem a propósito da celeuma que se levantou por ocasião da visita da filósofa estadunidense Judith Butler ao Brasil. Foram feitos abaixo-assinados contra sua vinda, protestos, rituais semelhantes a verdadeiros autos da fé medievais, com direito a fogueira e gritos contra aquela que seria a bruxa, a feiticeira que viria derrubar os valores de um povo cheio de moral e zeloso pelos bons costumes. 

O conhecimento que a Professora Butler veio trazer provoca medo e insegurança. Por quê? Porque abre as mentes para novas possibilidades e aciona o pensamento para que inicie a jornada em direção ao conhecimento libertador. Mas seus detratores são tão obtusos e violentos que sequer se informam corretamente sobre os fatos que criticam e contra os quais protestam.

É fato que Judith Butler é uma das maiores, senão a maior autoridade sobre teoria de gênero no mundo. Mas a conferência que vem dar no Brasil não é sobre gênero e sim sobre sionismo e o conflito entre Israel e Palestina. O livro que lança pela Editora Boitempo: Caminhos Divergentes. Judaicidade e Crítica do Sionismo trata justamente disto e não da teoria queer, da qual é grande especialista.  

O efeito da chuva de protestos contra ela e seu pensamento não se fizeram esperar. Sua conferência teve lotação esgotada e a fila de pessoas querendo assistir sem poder entrar era enorme. Talvez tivesse passado mais despercebida, atraindo apenas audiências acadêmicas e especializadas, não fosse a grita monumental que a precedeu e a pôs em relevo em todas as mídias e redes sociais. 

Não creio que seja obrigatório concordar com Judith Butler e sintonizar com seu pensamento quanto à forma e conteúdo. Tampouco é mandatório achar fascinantes suas posições e comungar plenamente com elas. No entanto, o conhecimento por ela produzido deseja comunicar-se e tem direito de encontrar espaço para sê-lo.  Impedir isso de acontecer é, por um lado, desrespeitar a pensadora e, por outro, tratar seus ouvintes e receptores como idiotas incapazes de discernir e pensar com a própria cabeça.  

Parece incrível que isso aconteça ainda no século XXI, quando já vai ficando distante no tempo a pretensão de Immanuel Kant de despertar a humanidade do sono dogmático em que se encontrava mergulhada. O tempo passou, a modernidade chegou, entrou em crise, já nadamos em águas pós-modernas, mas o obscurantismo parece que teima em retornar.  

Não será levantando barreiras de acesso ao pensamento que se construirá uma humanidade melhor. Pelo contrário, o paraíso artificial onde a mesma estará confinada sem o acesso livre ao conhecimento é muito mais semelhante à letargia do sono dogmático denunciado por Kant e outros filósofos.  Deste paraíso é digno e justo ser expulso.  Pois do outro lado estará não o pecado que mata, mas a verdade que liberta, oferecendo-se como fruto saboroso e maduro à “mastigação” do conhecimento que fará a humanidade caminhar e evoluir.   

Deixemos Judith Butler falar.  Abramos as portas aos pensadores vários que desejam comunicar o fruto de suas reflexões. Não somos obrigados a concordar com eles ou com elas.  Mas sim convidados a não permanecer na paradisíaca zona de conforto da ignorância e adentrarmos o caminho duro, mas belo da aventura do conhecimento, guiados por essas mãos ou por outras. 

A teóloga acaba de lançar sua nova obra, Testemunho: profecia, política e sabedoria, Editora PUC-Rio e Reflexão Editorial.

Maria Clara Bingemer
é teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio. É autora de diversos livros, entre eles, ¿Un rostro para Dios?, de 2008, e A globalização e os jesuítas, de 2007. Escreveu também vários artigos no campo da Teologia.
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