16 Nov 2017 | domtotal.com

Ela é o homem da casa

Antes de estabelecer uma ideia sobre a realidade e querer que tudo caiba nela (e isso é ideologia), precisamos ouvir o real e, a partir daí, estabelecer o conhecimento.

"Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra". (Guto Muniz)

Por Gilmar Pereira

Há uma expressão antiga que sempre foi usada para se dizer da mulher que tinha o poder ou a autoridade familiar, dizia-se “ela é o homem da casa”. A expressão análoga na anglofonia é “she wears the pants in the family”, algo como “ela é quem usa calças na família”, porque a calça era vestuário propriamente masculino. Tais frases revelam algo sobre os papeis sociais dos sexos em uma sociedade.

Por muito tempo se teve a mulher como a responsável pelos afazeres domésticos e o homem pela manutenção financeira. Ela cuidava das crianças, ele consertava o que quebrava. Os papeis eram definidos e havia “coisas de homem” e “coisas de mulher”. Por conta disso foi estabelecido um determinismo social baseado no sexo biológico. Uma mulher, por exemplo, não poderia participar da política ou mesmo votar porque era “mais sensível” e não agiria com a racionalidade e objetividade masculinas, mesmo que essas características não sejam exclusividade dos homens.

Quando uma mulher exercia o papel de chefe de família, tido como masculino, mesmo que tivesse marido, era chamada de “o homem da casa”. A resposta que se impôs com o tempo a tal determinismo foi de que os papeis sociais não são definidos pelo sexo, mas pela cultura. Foi-se descobrindo que realizar serviços domésticos não faz de um homem menos homem. Despertamos para o dado de que nem toda mulher é delicada e nem por isso é menos mulher.

Contudo, é interessante o fato de uma mulher ser chamada de homem, porque coloca em xeque o sentido disso. O que significa dizer que não basta ter pênis para ser tratado como tal. Ser homem significava desempenhar o papel de provedor da família e ser mulher ser provida. Acontece que mulheres não precisam ser chamadas de homem por terem autoridade ou por desempenharem papeis sociais que são considerados masculinos. É estranho que para ter sua autoridade afirmada a mulher precise ser tratada no masculino. Sabemos também que ser provedor e ser provido não tem nada a ver com o gênero sexual.

Aqui entram os chamados estudos ou teorias de gênero. Ao contrário do que dizem por aí, eles consideram as diferenças biológicas entre os sexos, mas se perguntam sobre qual é a influência disso sobre o homem e a mulher. Até que ponto algumas coisas que dizemos ser coisa de um ou de outro não são apenas construções culturais? Não tem ninguém querendo que menino seja criado como menina ou vice-versa. A pergunta é: o que é “de menino” ou “de menina”? Os estudos de gênero investigam a relação entre papéis e identidades sociais e diferenças biológicas. Isso é importante para libertar as pessoas de algumas opressões, como "menino não chora" ou "mulher no volante, perigo constante" - a repressão dos afetos já fez muito mal aos homens e o estigma da mulher motorista só corrobora o desrespeito a elas.

Alguns taxamentos ligados ao sexo ainda existem e são fortes. Quem trata a mulher como o sexo frágil faz uma determinação de que toda mulher é de tal jeito porque nasceu com o sexo que tem. Isso não lhe parece ridículo? É claro que os ciclos hormonais exercem influência no temperamento, mas não são a resposta final para tudo. Dizer que um homem pode trair ou ficar com várias mulheres só pelo fato de ser homem, que isso está em sua "natureza", também é injustificável e tem mais a ver com a cultura machista do que com a ciência.

Recentemente a palestra da filósofa Judith Butler causou certa comoção popular como se ela quisesse acabar com a família, perverter as crianças etc. Tudo isso é bobagem! As pessoas buscaram a condenação de algo que nunca leram e nem entendem bem. Muitos formaram sua opinião não pela leitura dos textos da autora, mas por aquilo que ouviram um líder (político ou religioso) dizer. Antes de estabelecer uma ideia sobre a realidade e querer que tudo caiba nela (e isso é ideologia), precisamos ouvir o real e, a partir daí, estabelecer o conhecimento. Nesse sentido, para que se entenda a sexualidade humana vale dar voz às distintas formas de sua composição para aí se conhecer suas origens e aquilo para o que apontam. Talvez possamos começar deixando que as pessoas transgêneros tomem a palavra e digam de si; que as mulheres que sofrem opressão por sua condição falem de sua experiência; que os homossexuais possam narrar e dar visibilidade àquilo que sentem. Os que sempre ficaram calados agora reivindicam por voz.

Quem se fecha a ouvir o diferente é quem possui ideologia, porque teme que a voz do outro quebre a fragilidade das ideias sobre as quais alicerçam suas vidas. Isso explica porque se trata o diferente como inimigo, porque este pode ser uma ameaça às falsas certezas. Mas, na verdade, não são inimigos. São apenas pessoas que querem ter o direito de ser quem são e, por isso, se organizam em movimentos para terem força e fazerem valer o que lhes compete. Os movimentos negro, LGBT, feminista, indígena e outros não querem ter direitos a mais que ninguém e nem querem destruir a sociedade, apenas ter direitos iguais. A equiparação não se dá abaixando o outro, mas promovendo o que foi excluído e posto abaixo.

Aqueles dois

O escritor Caio Fernando Abreu tem um conto muito bacana chamado Aqueles dois. Nele, o autor narra a história de dois rapazes que se conhecem no escritório onde foram contratados e que reconhecem mutuamente aquilo que possuem de especial em meio a um lugar que mais parece um "deserto de almas também desertas". A conexão estabelecida é alvo da mediocridade dos colegas de trabalho que, em suas especulações, já condenam e perseguem aquilo que nem acontece. É um texto de profunda delicadeza e beleza que permite que os afetos tidos como degenerados falem por si.  O conto serviu de base para a peça homônima da Cia. Luna Lunera. Em cartaz já há 10 anos, o espetáculo está no Teatro de Bolso do SESIMINAS de 23/11/2017 a 03/12/2017.

Informações: SESI

Gilmar Pereira
Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, graduado em Filosofia pelo CES-JF e em Teologia pela FAJE. Apaixonado por arte, cultura, filosofia, religião, psicologia, comunicação, ciências sociais... enfim, um "cara de humanas". Escreve às sextas-feiras.
Comentários
+ Artigos
Instituições Conveniadas