07 Dez 2017 | domtotal.com

Um cenário hostil ao processo civilizador

A cultura de um povo não cai do céu, ela é historicamente construída pelas relações econômicas, políticas e sociais.

O que leva uma nação, conhecida pela alegria e pela religiosidade de seu povo, a transformar-se em morada do capeta?
O que leva uma nação, conhecida pela alegria e pela religiosidade de seu povo, a transformar-se em morada do capeta? (Reprodução)

Por Flávio Saliba

O Brasil responde por 13% dos homicídios cometidos no mundo, anualmente. Em termos absolutos isso supera o número de homicídios cometidos nos Estados Unidos, Europa, parte da Ásia e norte da África, somados. O que leva uma nação, conhecida pela alegria e pela religiosidade de seu povo, a transformar-se em morada do capeta? As razões são múltiplas e, apesar de bastante estudadas, não ligam lé com cré. É um mar em que a sociologia navega sem chegar a um porto seguro. Esforços de explicação invocam desigualdades sociais, educação precária, desagregação familiar, impunidade, tráfico de drogas e, mesmo, instinto ou predisposições congênitas, sem chegar a explicações capazes de orientar a formulação de políticas públicas eficientes de combate à criminalidade. A natureza do problema é realmente complexa, mas seu diagnóstico tem sido atropelado pela confusão instalada nas próprias disciplinas que o abordam. Palpite, viés ideológico, senso comum, teorias e métodos questionáveis se somam para levar a nada os estudos neste campo.

Digamos que a violência e a criminalidade sejam de natureza cultural, o que é plausível. Mas a cultura de um povo não cai do céu, ela é historicamente construída pelas relações econômicas, políticas e sociais e, como tal, tem rebatimentos de ordem psicológica, gera tendências e molda o caráter das pessoas. Nunca é demais lembrar que Norbert Elias associa o processo civilizador a um conjunto de transformações ocorridas nas sociedades europeias na transição do feudalismo ao capitalismo.

Além da formação dos Estados nacionais ocorrem, naquele período, profundas mudanças nos hábitos cotidianos, entre elas a gradual substituição dos instintos pela racionalidade e da repressão externa pelo autocontrole, que vão pautar o comportamento individual nas modernas sociedades capitalistas. O igualitarismo promovido pelas relações de mercado permite que tais comportamentos sejam gradativamente transferidos das elites às camadas populares possibilitando a emergência de uma moral única e válida para todos, ou seja, a democratização das relações sociais. Relações de mercado jamais penetraram em profundidade e extensão suficientes a sociedade brasileira  a ponto de promover a democratização das relações sociais, o igualitarismo e uma moral única e válida para todos. As elites políticas tradicionais jamais se afastaram do poder, já que o Estado foi, e continua sendo, sua principal fonte de renda. Burocracias municipais, estaduais e federais se expandiram, menos para atender a demandas do crescimento populacional, que para abrigar parentes e apadrinhados.

Os setores produtivos, ou bem cresceram à sombra do Estado ou foram por ele subjugados via impostos e propinas. Se alguma moral única e válida para todos foi instalada entre nós, trata-se da naturalização da corrupção, das pequenas e grandes trapaças, do desrespeito à vida, à propriedade alheia, aos contratos e compromissos, além da desconfiança generalizada entre os cidadãos. Esse mar de lama é, obviamente, hostil ao processo civilizador e à formação do caráter individual. Isto posto, creio ser possível pensar a questão da violência dentro destes parâmetros, sem deixar de levar em conta a sua estreita relação com as práticas de corrupção.

Flávio Saliba
Formado em Ciências Sociais pela UFMG (1968), Doutor em Sociologia pela Universidade de Paris (1980), Pós-doutorado na Berkeley University (1994), Professor de Sociologia da UFMG. Livros publicados: 'O diálogo dos clássicos: divisão do trabalho e modernidade na Sociologia' (Ed. C/Arte, BH, 2004), 'História e Sociologia' (Ed. Autêntica, BH, 2007). Vários artigos publicados em revistas e jornais nacionais.
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