20 Nov 2017 | domtotal.com

O inimigo vem de dentro

Os inimigos vinham de fora para destruir nosso mundo de paz e era necessária a coragem bélica para expulsá-los

A vilã Hela é alguém do próprio povo que, na busca por engrandecê-lo, pode acabar lhe destruindo.
A vilã Hela é alguém do próprio povo que, na busca por engrandecê-lo, pode acabar lhe destruindo. (Divulgação)

Por Gilmar Pereira

Você lembra do ano de 1996? Talvez não se recorde de muita coisa ou, quem sabe, algo da mídia ou da cultura pop. Pois nesse ano foi lançado o filme estadunidense Independence Day. Parece algo irrelevante, mas nem tanto, caso se atente para o período histórico.

Com o fim da União Soviética, os anos 1990 foram marcados por grandes deslocamentos provenientes dos países do leste Europeu. Desde então a crise migratória avança. Não só isso: foi nessa década que as guerras ganharam sua roupagem tecnológica, movimentando bilhões de dólares durante a guerra do Golfo. Quem buscar pela memória vai encontrar nomes presentes nos noticiários, como Iraque, Kwait, Arábia Saudita, Golfo Pérsico, Saddam Hussein, Bill Clinton. Foi nesse período que a Al-Qaeda, apoiada pelo governo americano para expulsar as tropas soviéticas do Afeganistão, volta-se contra os seus patrocinadores. Foi em 1996 que Bill Clinton assinou sua primeira reforma no sistema de imigração, dificultando entradas no país.

O que vemos? Um exército forte que movimenta a indústria bélica e interfere na política de países produtores de petróleo. Entretanto, para se obter apoio popular é preciso criar a imagem de um povo heroico e salvador, e forjar a imagem de que o outro é o inimigo, não o governo que ataca. Assim temos a produção de um filme que até hoje faz sucesso. Sua história? Os inimigos vêm de fora para destruir nosso mundo de paz e é preciso a coragem bélica americana para expulsá-los. Independence Day é um filme que reforça a identidade estadunidense. O imigrante intergaláctico vem para destruir, roubar e matar.

Contudo, estamos assistindo a uma reviravolta nos filmes de alienígenas. No filme Arrival, os extraterrestres não são inimigos, mas quem quer contribuir e somar. São os governantes quem não conseguem interpretá-los devidamente e os ameaçam. Contudo, esse é um filme demasiado complexo e não tem a mesma penetração na cultura popular que um blockbuster. Nesse sentido, um filme urgente é Thor: Ragnarok.

O Ragnarok é o apocalipse da mitologia nórdica. Ali acontecerá o crepúsculo dos deuses e a destruição de Asgard, a sede dos nove mundos criados por Odin. No filme, a deusa da morte, Hela é irmã mais velha de Thor que, após a morte de seu pai, volta do exílio para tomar o poder e expandir seu reino, conquistando novos mundos e destruindo todos os que estiverem em seu caminho. O interessante do filme é que o inimigo vem do próprio povo: Hela e Thor têm a mesma filiação. Os aliados, por sua vez, vêm de outros mundos, de fora, quais migrantes, o que se dá com a presença de outro herói da Marvel, Hulk.

O mote do filme está na fala de Odin e que é repetida no final: “Asgard é o seu povo”, composto não só pelos nativos mas por aqueles que a estes se achegam para formar um reino de paz. O pai dos deuses também indica que a Terra poderia ser um lugar para os asgardianos em uma possível destruição, colocando o povo protagonista na possível condição de migrante.

Não se trata de um longa-metragem que será grandemente premiado. O filme conta com um humor mediano e certo empobrecimento dos personagens, mas vale como lazer que é. A vilã Hela é bem interpretada pela maravilhosa Cate Blanchett, o que conta muitos pontos para o filme. Apesar de todas as críticas que os fãs de grandes filmes podem fazer aos blockbusters, trata-se de um marco no posicionamento político da indústria cinematográfica, numa era em que as políticas migratórias do governo Trump falam mais de muros do que de pontes. A indústria do cinema também pode colaborar para abrir dos olhos da população ao dizer que o inimigo, às vezes, vem de dentro.

Gilmar Pereira
Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, graduado em Filosofia pelo CES-JF e em Teologia pela FAJE. Apaixonado por arte, cultura, filosofia, religião, psicologia, comunicação, ciências sociais... enfim, um "cara de humanas". Escreve às sextas-feiras.
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