07 Dez 2017 | domtotal.com

O fantasma da liberdade

Na maioria das vezes, a polarização demonstra que a massa desinformada apoia regimes autoritários porque se vê traída por suas escolhas.

A tendência à polarização que hoje registramos no país leva a crer que a democracia decepcionou boa parte dos eleitores
A tendência à polarização que hoje registramos no país leva a crer que a democracia decepcionou boa parte dos eleitores (Reprodução)

Por Jorge Fernando dos Santos

Pelé foi muito criticado quando disse que o brasileiro não sabe votar. Mas seria apenas o brasileiro? Vejam, por exemplo, a situação dos Estados Unidos. Depois do governo democrata de Barack Obama, o eleitorado escolheu o republicano Donald Trump para ocupar a Casa Branca. Sem contar que George W. Bush fora agraciado com dois mandatos.

Recomendo aos leitores o filme “Le Fantôme de la Liberté”, de Luis Buñuel, lançado em 1974.  Repleto de alegorias e situações absurdas, o longa-metragem mostra uma cena superatual, na qual um franco-atirador mata várias pessoas sem nem mesmo ser notado pela multidão. Somente depois de alvejar uma pomba é que ele vai preso, sendo julgado e condenado à liberdade.

O filme termina com a imagem de avestruzes num zoológico, tendo ao fundo gritos de “abaixo a liberdade”. Emblemático, não? Com sua genialidade, o autor de “A Bela da Tarde” mostra de maneira sutil que o povo nem sempre suporta a democracia. Na verdade, não suporta a consequência de suas escolhas. Por isso é tentado a apoiar déspotas para governar em seu nome.

O primeiro ministro britânico Winston Churchill disse certa vez que a democracia é o pior e o melhor sistema de governo. É o pior porque não é tão simples quanto parece. É o melhor porque pressupõe a escolha livre dos políticos, que deverão representar o povo na concepção e execução das leis nacionais.

Falsos messias

Na maioria das vezes, a polarização demonstra que a massa desinformada apoia regimes autoritários porque se vê traída por suas escolhas. A crença em governos totalitários é a melhor maneira de não se responsabilizar pelos erros e pela corrupção dos governantes escolhidos pelo voto. Foi o que ocorreu na Alemanha, após a derrota na Primeira Grande Guerra.

O fracasso da chamada República de Weimar abriu espaço para um messias. Adolf Hitler não tomou o poder pelas armas. Ele foi escolhido pela maioria dos eleitores alemães, que preferiram endossar suas promessas absurdas em vez de continuar apostando na democracia. Claro que os nazistas fraudaram muitas urnas, mas o apoio popular foi determinante para a ascensão do Führer.

Regimes como o fascismo italiano, o franquismo espanhol, o peronismo argentino e o getulismo brasileiro também contaram com o apoio das massas. Muita gente acreditou que seus líderes fossem iluminados e incorruptíveis, capazes de conduzi-los a um futuro melhor. Contudo, o saldo desses governos foi o pior possível, ecoando até os dias de hoje.

Nos 100 anos da Revolução Soviética, muitos russos lamentam o fim do stalinismo, alegando que a vida era melhor naqueles tempos. Não é diferente no Brasil. Cansados do mar de lama que tomou conta da política nacional, alguns alegam que na ditadura militar não ocorriam falcatruas. O que não havia mesmo era liberdade de informação, pois os críticos do regime eram duramente reprimidos.

A tendência à polarização que hoje registramos no país leva a crer que a democracia decepcionou boa parte dos eleitores. Muitos acreditam que seria melhor a volta de Lula à Presidência – apesar das acusações de corrupção. Na outra ponta, cresce o apoio à candidatura de Jair Bolsonaro. Em vez de fazer mea-culpa por suas escolhas, muita gente prefere acreditar em falsos messias.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 43 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual Editora), Prêmio Guimarães Rosa em 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ em 2003; Alguém tem que ficar no gol (Edições SM), finalista do Prêmio Jabuti em 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração Editorial), finalista do Prêmio da APCA em 2015.
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