14 Dez 2017 | domtotal.com

Biografias são obras inacabadas

Por mais que o biógrafo escarafunche a vida do biografado, sempre correrá o risco de que possam surgir novas revelações.

Toda biografia é uma obra inacabada.
Toda biografia é uma obra inacabada. (Reprodução)

Por Jorge Fernando dos Santos

O jornalista Ruy Castro publicou recentemente um artigo na Folha de S. Paulo, intitulado “Biografia em fascículos”, no qual explica porque nunca biografou alguém que ainda estivesse vivo. Biógrafo de Nelson Rodrigues, Garrincha e Carmen Miranda – além de autor de “Chega de Saudade – A história e as histórias da Bossa Nova” –, Castro afirma que nunca se sabe quando um biografado vivo irá cometer um pecado que desminta o que escreveram sobre ele.

Sem discordar inteiramente das premissas do nobre colega, penso que nenhuma biografia é completa ou definitiva. Por mais que o biógrafo escarafunche a vida do biografado, sempre correrá o risco de que possam surgir novas revelações, interpretações ou diferentes enfoques sobre o mesmo personagem. Isso talvez explique porque as celebridades ganham tantas biografias, sobretudo nos Estados Unidos.

Ao escrever “Vandré – O homem que disse não” – primeira biografia do autor de “Disparada” e “Pra não dizer que não falei das flores” a chegar às livrarias –, levei em conta os riscos de se descobrirem outras particularidades do controverso personagem após a publicação do livro. Até porque, procurei escrever uma reportagem biográfica e não propriamente uma biografia clássica, com a pretensão de esgotar o assunto.

Eu estava no auge da minha pesquisa, quando alguém me falou que um jornalista de São Paulo, chamado Vitor Nuzzi, havia escrito um livro sobre Vandré, intitulado “Uma canção inacabada”. Entrei em contato com ele, que gentilmente me enviou os originais para constarem da minha bibliografia. Realmente, ele fez um trabalho sério que muito me ajudou na conclusão da minha obra.

Estávamos em 2014 e ainda se discutia a legalidade das biografias não autorizadas. Nuzzi não tinha publicado o seu livro por não ter encontrado editor disposto a correr riscos. Fez uma edição independente, de apenas 100 exemplares. Aliás, a polêmica das biografias fora levantada pouco antes, pelos compositores do Procure Saber, grupo liderado por Paula Lavigne, empresária de Caetano Veloso – que havia se mobilizado com alguns colegas contra os biógrafos, provavelmente querendo se proteger de narrativas incômodas.

Enfoques diferentes

No meu caso, o dono da Geração Editorial, Luiz Fernando Emediato, resolveu correr os riscos e apostar na sorte. Chegou a declarar à imprensa que o meu livro seria publicado, mesmo se o Supremo Tribunal Federal vetasse as biografias não autorizadas. Após a unânime decisão do STF em favor dos biógrafos, em 2015, Nuzzi finalmente conseguiu um editor e seu trabalho saiu do prelo pouco depois do meu. Na mesma ocasião, o paraibano Gilvan de Brito lançava em João Pessoa o livro “Não me chamem Vandré”.

Por que estou contando tudo isso? Para mostrar que um mesmo personagem comporta mais de uma biografia. Embora tenha citado o livro de Nuzzi no meu, ambos reconstruímos a trajetória de Vandré com fontes e enfoques diversos, a exemplo de Gilvan de Brito. Enfoques complementares, eu diria, que podem ainda ser complementados com o passar dos anos.

De certa forma, também aprendi que uma vida não se esgota em um único livro. Novidades podem sempre surgir a respeito do biografado – esteja ele vivo ou morto. Mesmo que cometa algum desatino ou que surjam revelações negativas sobre sua vida, nada disso invalida o trabalho do biógrafo. Este, por sua vez, não deve julgar nem adjetivar o biografado. No caso de novidades, poderão ser publicadas edições revistas e ampliadas da obra.

Ruy Castro justifica seu ponto de vista citando o caso de Woody Allen, glorificado na biografia escrita por Eric Lax antes que Mia Farrow o acusasse de abusar dos filhos adotivos – entre eles aquela com quem ele se casou. O cineasta caiu em desgraça, novos livros saíram sobre ele e agora o próprio Lax lança outro no qual um dos filhos do casal, Moses Farrow, desmente Mia, acusando-a de mentirosa, tirana e manipuladora.

“Se Lax quiser chegar à verdade definitiva sobre Woody, deveria publicar sua biografia em fascículos”, ironiza Castro em seu artigo. Ora, como um mestre do gênero, ele deve saber que não existem verdades absolutas. Por melhor que seja seu trabalho, também corre o risco de que ainda se descubram detalhes inéditos sobre a vida de Nelson Rodrigues, Garrincha ou Carmen Miranda. Nenhuma narrativa, por mais completa que seja, será definitiva em se tratando de seres humanos. Resumindo: toda biografia é uma obra inacabada.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Ed. Atual), Prêmio Guimarães Rosa em 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ em 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti em 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio da APCA em 2015; e A Turma da Savassi (Quixote).
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