21 Dez 2017 | domtotal.com

Duas histórias surpreendentes

Para quem gosta de biografias, ficam as duas dicas: "O rei da roleta" e "O soldado brasileiro de Hitler".

Rolla precisou perder tudo numa rodada de truco para aprender que deveria ficar longe do jogo.
Rolla precisou perder tudo numa rodada de truco para aprender que deveria ficar longe do jogo. (Reprodução)

Por Jorge Fernando dos Santos

Sempre fui aficionado em biografias e já perdi a conta de quantas devo ter lido. Comecei pelos quatro volumes do Dicionário Biográfico Brasileiro, comprado por meu pai quando eu era criança. Ali tive acesso aos mais diversos personagens da vida nacional, entre políticos, militares, artistas e cientistas de importância histórica.

O curioso nesse gênero literário é que o livro não precisa necessariamente narrar a trajetória de alguém famoso ou importante para prender a atenção do leitor. Muitas vezes, personagens pouco conhecidos tornam-se relevantes por nos guiar aos bastidores da história oficial. Nesse sentido, gostaria de recomendar dois livros de autores residentes em Belo Horizonte que nada devem aos grandes biógrafos de renome.

O primeiro deles, publicado pela Casa da Palavra, intitula-se “O rei da roleta – A incrível vida de Joaquim Rolla” e foi escrito a quatro mãos por João Perdigão e Euler Corradi. O segundo, não menos importante, chama-se “Era um garoto – O soldado brasileiro de Hitler”, assinado por Tarcísio Badaró e lançado pelo selo Vestígio, da Editora Autêntica.

Façam seu jogo!

Joaquim Rolla nasceu em 1899, numa típica fazenda mineira de São Domingos do Prata. Desde cedo, revelou disposição e criatividade para o trabalhado. Tanto que recebeu o apelido de Prontinho, pois estava sempre de mangas arregaçadas para pegar no batente. Seu ofício de juventude, aquele que serviria de mola propulsora para suas ambições, foi o de tropeiro. Chegou a ter várias tropas de animais de carga, numa época em que não havia estradas nem automóveis pelos sertões dos Gerais.

Rolla precisou perder tudo numa rodada de truco para aprender que deveria ficar longe do jogo. O que ele não sabia é que mais tarde, já refeito da bancarrota, acabaria se tornando dono do famoso Cassino da Urca, no Rio de Janeiro, explorando a jogatina também em Poços de Caldas, Petrópolis e na Pampulha. Como a maioria dos grandes empresários brasileiros, meteu-se em política e se beneficiou do tráfico de influência. Contudo, o moralismo e a inveja dos concorrentes o fariam pagar um alto preço pelo sucesso.

Os cassinos marcaram época no entretenimento nacional e muito contribuíram com a atividade artística, empregando músicos, bailarinos, atores e cenógrafos. Ambicioso e megalomaníaco, Rolla também investiu na construção civil, erguendo o hotel e cassino Quitandinha, em Petrópolis, e o Edifício JK, em Belo Horizonte. Sua história é admiravelmente narrada em 460 páginas, que conduzem o leitor por importantes momentos da história nacional.

As mãos do destino

Se João Perdigão teve a sorte de ser sobrinho-neto de Joaquim Rolla e conhecer o empresário Euler Corradi, que o ajudou no livro, Tarcísio Badaró foi levado ao seu personagem pelas mãos do destino. Ao conhecer uma jovem pela qual se enamorou, foi conduzido por ela à história real de Horst Brenke, um filho de alemães nascido em Belo Horizonte que teve o azar de ir morar na Alemanha no auge do nazismo. Badaró teve acesso ao diário de Horst e pôde reescrever uma história repleta de dramas e surpresas.

O casal Brenke viera para o Brasil após a Primeira Guerra, quando a Alemanha mergulhou no caos econômico. De origem pobre, amargou em Belo Horizonte sérias dificuldades e resolveu retornar à pátria com os filhos, acreditando na ilusão de dias melhores. Afinal, o Terceiro Reich prometia reconstruir a grande Alemanha. Quando o sonho virou pesadelo, Horst – assim como seu pai – foi enviado à força para o campo de batalha.

Para reconstruir a trajetória do soldado brasileiro de Hitler, Tarcísio Badaró não só conseguiu que traduzissem o diário como também entrevistou familiares de Horst e refez todo o seu trajeto – de Berlim ao interior da Rússia. Na verdade, o jovem combatente sequer chegou a disparar o fuzil, ficando apenas cinco meses no campo de batalha, quando a Alemanha já vislumbrava a derrota. Seu pelotão foi feito prisioneiro e ele amargou vários meses num campo de concentração soviético em pleno inverno.

Para quem gosta de biografias, ficam as duas dicas: “O rei da roleta” e “O soldado brasileiro de Hitler”. Bom saber que escritores e jornalistas da nova geração estão se dedicando ao gênero da moda com extrema competência. Afinal, nunca antes na história desse país publicaram-se tantas biografias, o que demonstra que já não somos mais um povo sem memória.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 43 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual Editora), Prêmio Guimarães Rosa em 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ em 2003; Alguém tem que ficar no gol (Edições SM), finalista do Prêmio Jabuti em 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração Editorial), finalista do Prêmio da APCA em 2015.
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