28 Dez 2017 | domtotal.com

O ovo da serpente

A comédia dirigida por David Wnendt reflete sobre os riscos da volta do nazismo e está disponível no Netflix.

Cena do filme 'Er Ist Wieder Da'
Cena do filme 'Er Ist Wieder Da' (Divulgação)

Por Jorge Fernando dos Santos

O que aconteceria se Hitler voltasse do além? Eis a pergunta que o longa-metragem “Er Ist Wieder Da” (Ele está de volta) tenta responder. Melhor filme no Festival do Cinema Alemão de 2015, a comédia dirigida por David Wnendt reflete sobre os riscos da volta do nazismo e está disponível no Netflix.

O filme começa com Hitler despertando de um sono profundo, justo no local onde ficava seu bunker durante a Segunda Grande Guerra. Por acaso, um cinegrafista freelancer grava ali perto uma reportagem sobre a importância do futebol na vida de crianças pobres e capta sua imagem acidentalmente. Curiosamente, um dos meninos tem o nome Ronaldo nas costas da camisa.

Depois de acordar, Hitler perambula pelas ruas de Berlim em busca de respostas. Ele passa a ser confundido com um mero comediante que saberia imitá-lo com perfeição. Pelas mãos do cinegrafista que o filmou, o personagem vai parar na tevê, onde se torna campeão de audiência. A ironia é que os espectadores só se dão conta daquilo que ele de fato representa quando um vídeo o mostra matando um cachorro a tiros.

A história se revela uma farsa perigosamente divertida e, ao mesmo tempo, arriscada. O elenco é encabeçado por Oliver Masucci em excelente desempenho no papel principal. O mais hilário são as citações ao clássico “Der Untergang” (A queda – As últimas horas de Hitler), dirigido por Oliver Hirschbiegel e estrelado por Bruno Ganz, em 2005.

Falso documentário

Há muito tempo eu não assistia a uma comédia tão inteligente e corajosa. No limite do politicamente correto, “Ele está de volta” brinca com fogo, assim como os donos da emissora fictícia na qual o Führer se torna a atração principal. Misturando atores profissionais e figurantes que transitam pelas ruas, a produção é um misto de ficção e falso documentário.

O mais incrível é que não poucos figurantes concordam com as ideias totalitárias do protagonista. Muitos posam com ele para fazer self, enquanto outros pedem autógrafo. Alguns chegam ao desplante de fazer-lhe a saudação nazista. De certa forma, o filme faz um alerta para os riscos da volta de regimes autoritários numa Europa que enfrenta graves problemas, como o desemprego, o terrorismo e o preconceito contra refugiados.

A mensagem é clara: Hitler não agiu sozinho e suas ideias ainda ecoam. Numa das falas do filme, o protagonista declara que todo mundo tem um pouco dele dentro de si. Ao elegê-lo, os alemães lhe deram outorga para que realizasse seu execrável projeto de poder. Se tivesse vencido a guerra, ele certamente seria lembrado como herói.

Setenta e dois anos após a derrota dos nazistas para os Aliados, a decepção com a democracia desenha o pior dos cenários. Se no Brasil a polarização se torna cada vez mais evidente devido ao desencanto do eleitorado, um possível fracasso da União Europeia abriria espaço para que o fantasma do nazismo voltasse a assombrar o Velho Mundo. O filme faz pensar!

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 43 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual Editora), Prêmio Guimarães Rosa em 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ em 2003; Alguém tem que ficar no gol (Edições SM), finalista do Prêmio Jabuti em 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração Editorial), finalista do Prêmio da APCA em 2015.
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