04 Jan 2018 | domtotal.com

O governo que merecemos


Nunca antes tivemos um ex-presidente com sete processos de corrupção nas costas e uma condenação em primeira instância.
Nunca antes tivemos um ex-presidente com sete processos de corrupção nas costas e uma condenação em primeira instância. (Marcelo Camargo/ABr)

Por Jorge Fernando dos Santos

Democracia dá trabalho. Exige responsabilidade e consciência política. Quem não lê e não estuda tem dificuldades para pensar. Por isso nossos governos investem pouco em educação e cultura. Aliás, investem satisfatoriamente. O problema é que investem mal. A eles interessa o analfabetismo funcional e a ignorância política. Dessa forma é fácil manipular os eleitores.

No entanto, as coisas começam a mudar. Nunca antes tínhamos visto tantos políticos e empresários corruptos atrás das grades – haja vista no Rio de Janeiro, onde dois ex-governadores estão presos. Nunca antes tivemos um ex-presidente com sete processos de corrupção nas costas e uma condenação em primeira instância.

Mesmo que a operação Lava-Jato venha a ser interrompida por artimanhas da classe política, o fato é que ela serviu pelo menos para abrir os olhos do eleitorado. As investigações e os julgamentos até agora realizados deixam claro que não há mais inocentes na política nacional. Aliás, nunca houve. A diferença é que agora podemos dar nome aos bois.

Depois do que foi exposto, vota mal quem quer. Embora as opções sejam poucas, o eleitorado ainda tem o direito de anular o voto ou de não comparecer às urnas. Falta-nos compreender que a classe política não veio de outro planeta. Ela saiu do povo e reflete boa parte dos vícios acumulados desde os tempos da colonização do país. Em 2018, ano de eleições presidenciais, convém lembrar que somente a consciência civil pode mudar a política nacional.

Maus costumes

Enquanto não acabarmos com os maus costumes, o perfil de nossos representantes continuará o mesmo. Um povo que destrói o patrimônio público, que joga lixo nas ruas, que desrespeita as leis de trânsito e gosta de levar vantagem não pode gerar políticos melhores. É preciso revogar a famigerada Lei de Gerson, segundo a qual todo mundo quer levar vantagem.

E não estou falando apenas do brasileiro pobre, a quem não foi dada a oportunidade de estudar e ter um trabalho do qual se orgulhe. Falo daqueles que nasceram em berço esplêndido. O ensino público brasileiro é considerado um dos piores do mundo, mas isso não justifica a falta de educação da classe média.

Outro dia, na Praça da Liberdade, um cidadão de calção e camiseta interrompeu a caminhada matinal para urinar no tronco de uma árvore como se estivesse no banheiro de casa. Será que ele não sabe que os espaços culturais do entorno da praça dispõem de toaletes abertos ao público? E a dupla de senhoras que arrancou rosas no canteiro da praça, será que não têm dinheiro para ir ao florista?

Não raro, perto dali, alguém estaciona o carro bem em frente ao declive do passeio que dá acesso a pessoas cegas e cadeirantes. Nos shopping centers, motoristas ignóbeis estacionam seus carros nas vagas de idosos e deficientes físicos. Aí vale perguntar: que tipo de político essa gente merece? E o pior é que são os que mais reclamam do país.

É preciso compreender que nos regimes democráticos os políticos são gerados no ventre da sociedade civil, são eleitos pelo povo e ao povo devem representar. Quem não obedece às leis e não respeita o próximo cotidianamente não deveria reclamar dos seus representantes. Como disse o general Geisel, numa citação ao poeta Goethe, “o povo tem o governo que merece”. 
 

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Ed. Atual), Prêmio Guimarães Rosa em 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ em 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti em 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio da APCA em 2015; e A Turma da Savassi (Quixote).
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