05 Dez 2017 | domtotal.com

Meu rosto novo

"Eu não tinha esse rosto de hoje"

Antes do jato de laser corrigir minha miopia, a luz dos encontros que tive me fez ver a mim e ao mundo de modo diferente.
Antes do jato de laser corrigir minha miopia, a luz dos encontros que tive me fez ver a mim e ao mundo de modo diferente. (Gilmar Pereira)

Por Gilmar Pereira

Há um rosto novo no espelho. "Eu não tinha esse rosto de hoje", diria se fosse Cecília Meireles. Contudo, o semblante que surge parece o baú citado no Evangelho, de onde se tiram coisas novas e velhas. Há um rosto novo, mas ao mesmo tempo me é conhecido. Como lembrança vaga do passado, sei que esse estranho me é familiar. Ele me sorri dizendo, através desse gesto, que se lembra de mim, ainda que eu não o reconheça.

São os óculos, penso. A ausência deles me dá outra impressão, mas não é isso. Meu rosto mudou. Os anos se passaram e a mudança que mais noto não está na pele, com os vincos que já surgem, nem nos cabelos, cujos fios brancos vão aumentando pouco a pouco. A mudança está nos olhos, agora descobertos da armação pesada e das lentes grossas.

O rosto que agora encaro não é simplesmente reflexo do espelho, mas da história, das mudanças experimentadas, das opções feitas. A mutação externa reflete a interna. Por isso o rosto de hoje é um rosto novo.

Foi aos onze anos quando me diagnosticaram a miopia. Desde então, entre meus olhos e o mundo se impunha esse anteparo que se invoca no plural: óculos. Repousando sobre a face, parecia atrelado a ela, até mesmo para mim, que não podia mais me ver sem ele, a não ser quase colando minha cara ao espelho. As lentes de contato foram uma solução breve, mas não deu certo. Por isso, as memórias que tenho de mim são sempre com armações – ora grossas, ora finas – e com lentes que puderam ser reduzidas graças à tecnologia, mas ainda assim bem espessas.

O cabelo domado partido de lado, a forte piedade religiosa e os óculos sempre formaram um bom conjunto na adolescência. Contudo, os cachos eram revoltos; a religiosidade, inquieta; mas o rosto não se desprotegia. Ainda assim, o riso se levantava completando a descompostura que vira e mexe me sobressaem.

Creio que muitos de nós lutamos contra nós mesmos. E nessa brincadeira de esconde-esconde, fugimos do nosso eu-menino. Precisamos ser e parecer responsáveis; nossos desejos, contidos; nossos valores, ressaltados; nossa seriedade, afirmada. Daí entramos num papel social que não cabemos. Frequentemente, adoecemos ou ficamos tristes. Como consequência, podemos fazer mal ao outros, só por sermos quem não somos. Mas o menino nos encontra e pede atenção.

Há momentos nos quais precisamos optar em continuar o caminho que se vem traçando ou mudar radicalmente. Romper nunca é fácil e aqui não falo dessas coisas típicas de matérias como “Fulano largou o trabalho numa grande empresa para fazer ‘mochilão’ na Europa”, onde os protagonistas são jovens de classe média alta que contam com a segurança, apoio e sustento da família. Quando se tem conta para pagar as coisas não são tão simples. Falo das pessoas que levam um namoro arrastado (algumas até se casam) que não tem mais amor, mas ao qual já se acostumou e não se consegue abandonar. Falo daqueles que não creem mais como suas famílias e igrejas ensinaram, mas se impõem as obrigações de sempre, por medo da ruptura com seu círculo social e com o que vão pensar. Falo de quem tem medo de ser quem é.

Quanto a mim fui mudando. Muita gente foi chegando e poucas saindo. Cada lugar visitado ou conhecimento adquirido foi me transformando, cada vez mais em mim mesmo. Antes do jato de laser corrigir minha miopia, a luz desses encontros me fez ver a mim e ao mundo de modo diferente.

Um ciclo de vida se fecha e outro se abre. O rosto se carrega de tempo, mas a criança ressurge, cheia de esperanças e sonhos. Ela sempre esteve ali. Os óculos saem, os cabelos não se comportam, a fé surge diferente. O mesmo é também outro. Eu não tinha esse rosto de hoje, embora sempre o tivesse. Já não tenho medo de mostrá-lo nem de oferecer a tapa minha face.

Rostos de BH

Uma cidade é como uma pessoa, em constante mutação e com muitas faces. Isso não é diferente com Belo Horizonte, apesar da fama de conservadora que a tradicional família mineira lhe confere. Planejada para ser delimitada pela Avenida do Contorno, BH não se conteve geografica e culturalmente. Se no passado haviam bairros destinados a um público específico, como fora com o Funcionários, e ainda hoje tenha certo esforço aristocrata de segregar as pessoas em bairros e condomínios com pouco acesso por transporte público, a vida que pulsa na capital teima em misturar sua gente. Assim como as "Minas são muitas", Belo Horizonte também é plural.Ao mesmo tempo que guardando suas tradições, a capital traz o novo. E nessa bricolagem toda, sobrepõem-se, justapõe-se, conflitam-se e se harmonizam diversos estilos, linguagens, imagens e artes, compondo diversos rostos com os quais se pode conhecer a cidade. O baixo Centro, Lourdes, Pampulha, Barreiro... A BH dos descolados, dos artistas, da família tradicional, dos "sem-família", dos religiosos, dos estudantes... Comemorar 120 de histórias impõe ao município a difícil tarefa de se mostrar com todas as suas faces. Por isso a programação desse ano é extensa e tem programa para todos os gostos.

Clique aqui e veja a programação completa.

Gilmar Pereira
Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, graduado em Filosofia pelo CES-JF e em Teologia pela FAJE. Apaixonado por arte, cultura, filosofia, religião, psicologia, comunicação, ciências sociais... enfim, um "cara de humanas". Escreve às sextas-feiras.
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