08 Dez 2017 | domtotal.com

A grande faxina

Os ciclos estão em desequilíbrio, trabalho e descanso se misturaram e os limites entre público e privado se diluíram.

Nessa desordem que tem se tornado nossas vidas é hora de fazer a grande faxina.
Nessa desordem que tem se tornado nossas vidas é hora de fazer a grande faxina. (Reprodução/ Pixabay)

Por Gilmar Pereira

Sábado era dia de faxina. Apesar de limpara a casa todos os dias, a mãe punha todos os filhos para colaborar. Até o pequeno tinha que fazer alguma coisa. Era ele que tirava o pó dos móveis, limpando os cantos fundos que somente seu braço ainda fino poderia alcançar. Ainda assim, com toda essa limpeza, no fim do ano tinha a grande faxina, por ocasião do Natal.

Quando se fala de Natal, lembra-se de comida, festa, família, uva-passa (maravilhosamente) em tudo, mas poucos narram a experiência da grande faxina. Apesar disso, muitos trazem na memória esse evento natalino. Geralmente era precedido de alguma melhoria na residência. “Quero pintar essa casa antes do final do ano” – já era dito em julho, principalmente em casas com crianças. Com as paredes sujas de dedos e na possibilidade de receber muitas visitas, ter a casa em ordem para as festividades parecia fundamental. Outro ano era a reforma do terraço. Outro, a mudança do piso.

Aguardava-se o Natal como se fosse a chegada de uma pessoa e tinha-se o Réveillon como um encerramento de tempo. Tudo tinha que ter sido consumado antes do fim, precedido, porém, da grande visita, quando cearíamos todos no grande banquete, preparado pelo caos e ordenação que lhe antecediam. Todo ano era um Apocalipse.

Hoje os ciclos parecem importar menos. O panetone está no supermercado em Abril ou Julho. Não sei quem compra essa iguaria no Carnaval ou São João, mas a presença dos símbolos ligados a datas específicas fora de época faz perder a aura das vésperas. “Tu vens! Tu vens! Eu já escuto os teus sinais!”. A vida tinha ritmo.

As delimitações tinham sua função. Com a invenção do home office, o trabalho se misturou à vida pessoal. Você responde e-mail do trabalho em casa, está sempre disponível pelos aplicativos de mensagem, adianta algumas coisas que não terá tempo de fazer no espaço do serviço porque o deadline é curto. Com palavras em inglês para dar ares de modernidade – você pode substituir workflow por fluxo de trabalho ou job por serviço, por exemplo – o trabalho adentrou a vida sobrecarregando os ânimos. Estamos sempre correndo, fazendo algo, atualizando-nos em função do mercado, aproveitando o tempo no ônibus para ler ou responder mensagens, de modo que a percepção do tempo mudou.

Os ciclos estão em desequilíbrio, trabalho e descanso se misturaram e, por fim, os limites entre público e privado se diluíram. Mais do que nunca o dito popular “o de casa vai à praça” se cumpre. Fez-se da casa, praça, e da praça, casa. Está tudo publicizado, midiatizado. O excesso de exposição também faz exaurir os ânimos, uma vez que não basta ser se não parecer.

Nessa desordem que tem se tornado nossas vidas é hora de fazer a grande faxina. Primeiro há de se colocar tudo para fora. Abrir armários e gavetas, esvaziar cabides. Com tudo exposto, cabe doar a roupa que não se usa, jogar fora a papelada inútil acumulada, limpar a poeira, lavar o que é sujo, abrir espaço e reacomodar o que presta. Examinar tudo e ficar com o que é bom. Nessa limpeza encontraremos ditos que nos pesam o peito, presenças que nos fazem mal, hábitos destrutivos, amigos verdadeiros, valores que nos motivam, afetos recebidos.

Há coisas que nos doem pôr para fora e expurgar de nossas vidas. Resistimos a nos livrar delas como se fossemos precisar no futuro. Contudo, se a casa não fica pronta, a celebração perde um pouco de seu brilho. É bom que as coisas se ajeitem antes do fim.

Toquinho e Orquestra

Quando se começa uma boa arrumação, encontramos, entre gavetas e pastas, bilhetes, mensagens, fotografias... recordações de todo tipo. Somos remetidos a momentos singulares de nossa história que nos fazem refletir sobre quem éramos e quem nos tornamos. Isso nos abre à perspectiva de quem queremos ser. Ajuda muito na rrevisão da própria história a memória musical. Com grande potência, a música nos transporta não só à história pessoal, como também a história de nosso país ou mesmo do mundo. Isso também é importante, porque nos ajuda a ler a própria vida no contexto no qual ela se insere. Antes da faxina da casa, vale a varredura da alma.

Junto à comemoração dos 120 anos de BH, a Orquestra Sinfônica Arte Viva e Maestro Amilson Godoy convidam Toquinho para um concerto no dia 10 de dezembro, domingo, na Praça da Estação, às 21h. O repertório é marcado de memórias que, além de composiçõe do cantor, conta com “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso, “Asa Branca Assum Preto”, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, um medley com canções da Legião Urbana, “Chega de Saudade”, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes e uma Suíte Mineira.

Criada há 20 anos pelo Maestro Amilson Godoy, a proposta da Orquestra Arte Viva é levar música erudita para o público de um jeito bem diferente. “O que eu busquei foi trazer para a música popular essa riqueza sinfônica que acontece normalmente dentro da chamada música erudita”,explica. Mesclando clássico e popular, numa mistura boa, o maetro extrai o que cada um desses estilos têm de melhor.

SERVIÇO
SÉRIE REDE SINFÔNICA

Orquestra Sinfônica Arte Viva e Maestro Amilson Godoy convidam Toquinho
Regência Maestro Amilson Godoy
Dia 10 de dezembro de 2017 (domingo)
Horário: 21h
Local: Praça da Estação. Belo Horizonte/MG
Patrocínio: REDE – uma empresa Itaú
Apoio: Prefeitura de Belo Horizonte / Belotur / Fundação Municipal de Cultura
Acesso gratuito
Informações: (11) 3564.0684 / (11) 9.8556.3193 | tiago@artevivaproducoes.com.br

Gilmar Pereira
Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, graduado em Filosofia pelo CES-JF e em Teologia pela FAJE. Apaixonado por arte, cultura, filosofia, religião, psicologia, comunicação, ciências sociais... enfim, um "cara de humanas". Escreve às sextas-feiras.
Comentários
+ Artigos
Instituições Conveniadas