12 Dez 2017 | domtotal.com

João Batista: o profeta incorrupto

A idolatria é principalmente uma forma de vida, não uma visão metafísica de mundo.

A corrupção se torna próxima à idolatria porque, em qualquer de seus níveis, seja ele moral ou político, é sempre uma traição à verdade.
A corrupção se torna próxima à idolatria porque, em qualquer de seus níveis, seja ele moral ou político, é sempre uma traição à verdade. (Reprodução/ Pixabay)

Por Maria Clara Bingemer

O Advento avança com sua proposta de conversão e seus protagonistas. Um deles é o precursor, o profeta “maior do que todos os filhos de mulher”. Neste tempo litúrgico, especialmente, sua figura se levanta como aquele que denuncia a corrupção em todos os níveis em que esta existe, mantendo-se inatingível por este verme que corrói a dignidade e a vida justa, levando à idolatria que adora falsas divindades e não o Deus verdadeiro.

Em tempos de tamanha corrupção, faz-nos bem olhar para aqueles que a denunciam. E João Batista é um deles. Do deserto já se ouvia sua voz clamando por conversão e mudança de vida. Seu olhar de profeta via a corrupção acontecendo e ele sabia que a vida que é Deus mesmo se encontrava ameaçada.

Corrupção vem do latim corrumpere, “destruir, estragar”. Em português, o substantivo feminino corrupção deriva do latim corruptĭo, com o sentido de «deterioração», processo ou efeito de corromper». E este substantivo pode significar:
a) deterioração, decomposição física, orgânica de algo ou putrefação; ou ainda b) modificação, adulteração das características originais de algo.

Desde tempos imemoriais, a corrupção está presente como possibilidade maléfica para o agir e o comportamento humanos. Em sua ambiguidade, o ser humano, homem ou mulher, “deseja o bem, mas não o pratica; e não deseja o mal, mas o pratica”.  Assim já dizia Paulo de Tarso na Carta aos Romanos 7, 19. Ser humano é ser dividido, é ser campo disputado, é ter inclinações em mais de uma direção e, portanto, dever exercitar a liberdade a cada minuto e a cada passo.

Por sua vez, idolatria encontra sua raiz em ídolo, do grego “eidolon”, que significa aspecto, imagem mental, fantasma, aparição, assim como também imagem material, estátua. E ainda de “eidos”, que é forma.  Ambos os termos se juntam a “latreia”, serviço, adoração e aí temos a palavra idolatria: o culto e o serviço prestados a algo que é falso. O ídolo é, então, uma representação da divindade, a qual se faz objeto de culto, usurpando essa imagem o lugar de Deus e recebendo em vez d´Ele a adoração ou o culto.

Para a Bíblia, o principal problema na idolatria é a traição. Não se trata de um erro metafísico, uma questão de ontologia, mas de ética. A questão chave não é o que as pessoas acreditam, mas como elas se comportam. A idolatria é principalmente uma forma de vida, não uma visão metafísica de mundo. Por esta razão, as principais metáforas bíblicas da idolatria são o adultério e a deslealdade sob todas as suas formas, inclusive a política.

Na Bíblia hebraica, a corrupção se torna próxima à idolatria porque, em qualquer de seus níveis, seja ele moral ou político, é sempre uma traição à verdade. Ou seja, trata-se de pautar o comportamento, as atitudes, a ética sobre bases que não são verdadeiras. Adora-se o não verdadeiro.  E essa não verdade corrompe a atitude da adoração que se presta e transborda em frutos envenenados de corrupção os mais diversos, sendo o pior deles a justificação de comportamentos daninhos aos mais vulneráveis e a exploração dos pequenos e pobres.

Alguns profetas em Israel denunciaram esse estado de coisas. Por causa disso, foram perseguidos e mortos. Assim foi com João Batista, o profeta de palavras de fogo que chamava à conversão o povo infiel e reconheceu em Jesus que com ele andava alguém maior diante de quem era importante retirar-se. “É preciso que Ele cresça e eu diminua”.

O mesmo João Batista, mais tarde, quando Jesus já pregava o Reino de Deus pelas cidades e aldeias, denunciará a corrupção do rei Herodes, que tomara para si a mulher de seu irmão. “Não te é lícito tê-la por mulher”, clamou João diante do rei. E foi preso. Ganhou por isso o ódio de Herodíades, mulher de Herodes, que terminou conseguindo que sua jovem e sedutora filha Salomé pedisse a cabeça do profeta em uma bandeja de prata.

Herodes – covarde como em geral o são os corruptos de todos os perfis – havia lhe prometido tudo que quisesse após a dança com que o encantara.  Tudo, mesmo que fosse mais do que a metade de seu reino. Teve que conceder à ambiciosa jovem a vida do homem cuja cabeça valia mais do que a metade de um reino.

Hoje a corrupção idolátrica maior não visa tanto a luxúria como a cobiça e o enriquecimento ilícito. A sociedade em que vivemos é corrupta. E, portanto, idólatra. Deforma constantemente seu rosto e seu perfil vivendo na mentira, na clandestinidade e na espoliação descarada e iníqua dos mais pobres e vulneráveis. Acumula riquezas incalculáveis às custas da exploração daqueles que mal têm o que comer e que trabalham de sol a sol para ganhar um salário inferior a suas necessidades. Sendo corrupta, é igualmente idólatra.  Ama com verdadeira adoração as coisas materiais e as erige em ídolos que passam à frente dos verdadeiros valores. Transforma o mercado, o lucro, a riqueza em deus e vive da e na crença nesse Deus.  

Já o Papa Francisco afirma a aproximação entre corrupção e idolatria:  “A corrupção sempre encontra o modo para se justificar, apresentando-se como a condição “normal”, a solução de quem é “esperto”, o caminho para atingir os seus objetivos. Tem uma natureza contagiosa e parasitária, porque não se nutre do que de bom produz, mas do que subtrai e rouba. É uma raiz venenosa que altera a sã concorrência e afasta os investimentos. Enfim, a corrupção é um “habitus” construído sobre a idolatria do dinheiro e da mercantilização da dignidade humana... “

Que neste Advento a figura luminosa e incorruptível de João Batista nos abra os caminhos da justiça e da fidelidade, a fim de podermos construir um mundo e muito concretamente um Brasil menos deteriorado e putrefato para legar a nossos filhos e netos.

Maria Clara Bingemer
é teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio. É autora de diversos livros, entre eles, ¿Un rostro para Dios?, de 2008, e A globalização e os jesuítas, de 2007. Escreveu também vários artigos no campo da Teologia.
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