09 Jan 2018 | domtotal.com

A arte da gente

Algumas teorias compreendem a arte como uma releitura do mundo, um olhar humano sobre a realidade, mesmo com suas feiuras e agruras.

A gente não é do jeito que quer, a gente e do jeito que dá conta.
A gente não é do jeito que quer, a gente e do jeito que dá conta. (VAC/ Netun Lima)

Por Gilmar Pereira

Não havia distinção entre artista e artesão na antiguidade. Arte designava qualquer procedimento humano organizado por regras, por isso até mesmo a medicina foi considerada como tal. Hoje o termo mais adequado para falar disso é técnica, que de modo geral indica todo procedimento normativo a regular comportamento nos distintos campos.

Na concepção antiga, arte se diferenciava de natureza ou daquilo que não poderia ser de outro modo, daquilo que teria certa objetividade, a ciência. Matemática seria ciência; arquitetura, arte. Como arte e técnica estavam tão implicadas, foi só no século XIX que se distinguiram, dentro das artes, as chamadas mecânicas e as estéticas (ou belas). Estas últimas teriam fim em si mesmas, de modo que resultariam em prazer ou se prestariam à fruição, apenas, por serem desinteressadas da realização de algum objetivo. Mais recentemente, quando se fala de arte têm-se em mente as belas artes ou arte estética.

Aqui mora uma das discussões sobre a arte, a questão da beleza, da estética. Há concepções que entendem que algo só pode ser considerado arte se for bonito, agradável, elevar o espírito. Sua concepção de belo está próxima da aproximação que se fez no passado entre o belo, o bom, o uno e o verdadeiro, atributos do Ser. Tomam tal concepção já cristianizada e aí já colocam a beleza como tudo aquilo que revela algum aspecto do divino. Algumas teorias mais contemporâneas, entretanto, abrindo mão da unidade do real ou mesmo de um postulado sobre o Ser, compreendem a arte como uma releitura do mundo, um olhar humano sobre a realidade, mesmo com suas feiuras e agruras.

O artista estabelece uma relação com o mundo e sua arte seria resultado disso. Não se trata, pois, de uma representação fiel do mundo, mas um produto do mundo representado ao artista. Não conhecemos as coisas como elas são, mas como elas se nos apresentam. Quando redigo isso, quando traduzo isso que contemplo, produzo arte. Acontece que para melhor comunicar tal experiência, o artista propõe que outros a façam. Assim, quando Cildo Meireles, na obra Através, exposta em Inhotim, propõe um chão com vidro estilhaçado para que o público possa caminhar sobre ele, entre as diversas barreiras da obra – arame farpada, cortina de chuveiro, grades etc. –, está oferecendo uma experiência. É pobre dizer que o artista quer representar as dificuldades e barreiras da vida.  Quando se caminha por aquele chão, ouve-se os cacos rangendo um sobre o outro, vê-se sua transparência e, apesar dos elementos geometricamente dispostos, contempla-se o caos, imagens são suscitadas, sentimentos são despertos. Não importa mais o que o artista quis dizer, mas aquilo que ele diz para mim.

Muita gente se encanta de quadros realistas ou hiper-realistas, que parecem uma fotografia da realidade (que já é um recorte desta), e não gostam da arte que não tem o mesmo tipo de figuração. Debocham dizendo que é só jogar um monte de coisas e chamar de arte. Contudo, não é bem assim. Nas cercas de arame farpado de Meireles o público pode ver as que foram instaladas na própria casa para protegê-la dos bandidos e seu sentimento de insegurança, pode ver as que cercam os presídios, as que estiveram nos campos de concentração, as usadas nos campos de guerra – todas imagens do medo. Nesse medo que é evocado pela imagem, encontra os seus mesmos e as próprias barreiras pessoais. O que fala mais do medo, a experiência de estar envolto pela cerca ou um desenho fidedigno de uma? Isso depende da técnica utilizada, de como aquela obra colabora ou não para tal experiência e, mais, o que esta experiência provoca.

Isso também é algo importante na obra, sua capacidade de, ao significar o real, transformá-lo. Uma obra que critica o racismo, que o expõe, pode causar um movimento de angustia ou raiva, despertar para os nossos próprios racismos. Uma obra que traga nudez pode nos provocar em nosso puritanismo, na nossa relação com o corpo e a sexualidade, na cultura com a qual fomos criados. Às vezes esse mal estar é positivo, porque, quando provocados, temos a chance de nos perguntar porque isso nos indigna, que experiência sobre esse tema tivemos na nossa própria história, podemos fazer um autoexame e crescer. Algumas pessoas dão conta disso sozinho, de perceber os construtos sociais e traumas nos quais está aprisionado e dar um salto, libertar-se. Outros, entretanto, vão precisar de psicanálise. Mas aí já não é função do artista.

Dona Teresa é uma artista fazendo seus panos de prato. Nele está seu mundo, com as flores que tanto pinta e borda. As manchas e borrões numa tela também podem ser, do mesmo modo que um performer nu em um museu. A arte não precisa ser bonita, nem gozar da aceitação da maioria. As tentativas de censura pela qual tem passado só revela a má-fé de quem quer lhe calar. Tem gente que não dá conta de se questionar. Mas como aprendi de quem muito amo, “A gente não é do jeito que quer, a gente e do jeito que dá conta”.

VAC 2018

A 12ª edição do Verão Arte Contemporânea está sendo realizada em Belo Horizonte, sempre fiel à proposta de incentivar a pesquisa e a experimentação nas artes, valorizando a criação artística local e introduzindo novidades a cada edição. O evento acontece entre os dias 07 de janeiro e 04 de fevereiro de 2018 ocupando 18 espaços culturais da cidade com 30 atrações artísticas que passam por Arquitetura, Artes Visuais, Cinema, Dança, Gastronomia, Literatura, Música, Moda e Teatro. Maiores informações no site do VAC.

Gilmar Pereira
Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, graduado em Filosofia pelo CES-JF e em Teologia pela FAJE. Apaixonado por arte, cultura, filosofia, religião, psicologia, comunicação, ciências sociais... enfim, um "cara de humanas". Escreve às sextas-feiras.
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