11 Jan 2018 | domtotal.com

Livro perde espaço para o celular 

A leitura perdeu prioridade na vida das pessoas.

Alguns alegam falta de tempo para a leitura, mas ficam horas no Facebook ou nos grupos do WhatsApp.
Alguns alegam falta de tempo para a leitura, mas ficam horas no Facebook ou nos grupos do WhatsApp. (Reprodução)

Por Jorge Fernando dos Santos

Os franceses sempre tiveram fama de ler no metrô. Em janeiro de 2014, em Paris, observei um grande número de passageiros com os olhos grudados em livros, jornais e revistas. De volta à cidade quatro anos depois, faço uma constatação no mínimo preocupante: em 2018, a maioria tecla nos celulares.

Claro que algumas pessoas usam o celular para ler notícias ou literatura. Contudo, pelo que percebi no metrô parisiense, a maioria utiliza o aparelho para falar no WhatsApp, seguir os amigos no Facebook ou simplesmente ouvir música. Leitura, que é bom, parece pouca.

Em 2016, o portal do Governo de São Paulo divulgou pesquisa da Market Research World sobre os hábitos culturais, entre eles o de leitura, em diversos países. A França apareceu em nono lugar. O país que mais lia era a Índia, cujos habitantes dedicavam, em média, 10 horas e 45 minutos semanais à leitura.

A Ásia, por sinal, seria o continente que mais lê no mundo. Tailândia, China e Filipinas apareceram respectivamente em segundo, terceiro e quarto lugares na pesquisa. O campeão latino-americano era a Venezuela, em 14º lugar. O Brasil, por sua vez, ocupava o 27º lugar no ranking mundial.


Literatura infantil


Em 2015, o então ministro da Cultura, Juca Ferreira, classificou como “vergonhoso” o índice de leitura dos brasileiros: 1,7 livros por ano. “É uma média que está abaixo de países vizinhos”, lamentou numa reportagem do Estadão. Desde então, os governos nada têm feito para mudar o quadro.

Se na França – como em todo o mundo – a internet passou a concorrer com os meios tradicionais de leitura e informação, no Brasil não seria diferente. Hoje, muita gente passa mais tempo em frente ao computador ou à TV do que com um livro nas mãos. Alguns alegam falta de tempo para a leitura, mas ficam horas no Facebook ou nos grupos do WhatsApp.

Claro que algumas pessoas optam pela leitura em suportes eletrônicos. Eu mesmo ganhei um Kindle no Natal de 2014 e, até agora, reuni 98 obras numa biblioteca virtual. Moro num quarto-sala, com pouco espaço para armazenar livros. Dessa forma, descobri o conforto da leitura eletrônica e acabei me habituando.

De qualquer modo, não importa a plataforma, o fato é que a leitura perdeu prioridade na vida das pessoas, embora continue sendo primordial para melhorar os níveis de informação e pensamento. Está provado que quem lê tem mais facilidade de raciocínio. Talvez por isso os governos invistam tão pouco em educação e cultura. Afinal, governar a massa iletrada parece ser mais fácil.

No caso da França, restam esperanças. Além das políticas educacionais ainda valorizarem o livro, vi no metrô uma menina de 8 a 9 anos entretida com uma obra infantil. O pai, ao lado dela, ouvia música e teclava no celular. Algumas vezes ela o interrompia para comentar o texto. Mais uma vez ficou clara para mim a força da literatura infantil como mecanismo de estímulo à leitura. Daí a importância do estudo de obras específicas em escolas de todos os níveis.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Ed. Atual), Prêmio Guimarães Rosa em 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ em 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti em 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio da APCA em 2015; e A Turma da Savassi (Quixote).
Comentários
+ Artigos
Instituições Conveniadas