13 Jan 2018 | domtotal.com

Resquícios da Cabanagem

Situação dos mais pobres que, no contexto do século XIX se chamavam cabanos, agora se estende pelas periferias de todas as cidades brasileiras.

Mesmo quando o povo pobre parece um ramo ressequido e sem vida, uma chuva repentina pode provocar um renascimento libertador.
Mesmo quando o povo pobre parece um ramo ressequido e sem vida, uma chuva repentina pode provocar um renascimento libertador. (Reprodução/ Pixabay)

Por Marcelo Barros

Esse ano começa com notícias negativas sobre medidas governamentais que restringem direitos dos trabalhadores e diminuem as possibilidades de aposentadoria para a maioria do povo. As estatísticas revelam aumento do desemprego e, como se ainda fosse possível, um aumento desproporcional da concentração de rendas. Isso significa, é claro, agravamento da pobreza da maior parte dos brasileiros. Tudo isso contribui para uma insegurança maior nas cidades. Principalmente, nas periferias urbanas, a violência e o tráfico de droga se tornam rotina.  

Ao olhar essa situação tão grave, poucos brasileiros, além dos especialistas em História, se recordarão de que, no dia 06 de janeiro de 1835, explodiu no Brasil a Cabanagem, a maior rebelião popular dos tempos do Império. No começo do século XIX, o Grão Pará compreendia os atuais estados do norte do Brasil. Era a maior província brasileira, a mais pobre e isolada. Era a região brasileira mais ligada a Portugal, tanto que até muitos a chamavam de "Terra da bela Lusitânia". Apesar de que Dom Pedro I proclamou a independência do Brasil em setembro de 1822, a província do Grão Pará só a reconheceu por imposição do governo de Belém, em agosto de 1823. Mesmo assim com muitas tensões e divisões internas. Todos os cargos públicos e recursos econômicos eram ocupados por portugueses e seus familiares. A imensa parte da população da região era formada por gente muito pobre. Eram índios aldeados e outros já destribalizados, chamados tapuios. A população negra era de escravos e mestiços que, embora livres, tinham uma vida mais sofrida do que a dos escravos. Toda essa população em situação de miséria era vivia amontoada nas beiras dos igarapés, dispersa pelos campos em torno da cidade e cada vez mais em cabanas infectas que faziam parte da imensa cidade de palafitas que era Belém. Os "cabanos", como eram chamados esses pobres, trabalhavam como semiescravos na exploração das plantas (como cravo, pimenta, plantas medicinais, e baunilha), na extração de madeira e na pesca.

Desde que se falou em independência, o povo exigia a formação de um governo popular. Os cabanos se uniram a fazendeiros locais e comerciantes para formar um governo provisório. A tropa de mercenários enviada pelo império brasileiro reprimiu o movimento. Conseguiu fazer 300 prisioneiros e os sufocou com cal a bordo do navio Palhaço. Isso provocou ainda mais revolta. Os cabanos conseguiram a adesão de alguns intelectuais e um ou outro eclesiástico. E no dia 6 de janeiro de 1835 uma multidão de índios, negros, mestiços e alguns de classe média irromperam armados na cidade. Apoderaram-se da cidade de Belém, mataram o governo local e colocaram um governo independente. A partir daquele 6 de janeiro, tropas fieis ao império com apoio de Portugal e da Inglaterra atacaram violentamente o Pará. Foram cinco anos de uma guerra violenta, até que o governo central conseguiu reprimir o movimento e matar todos os identificados com a revolta. Mais de um terço da população foi massacrado. Povos indígenas como os Murá e os Mauê que participaram da revolta, foram exterminados.

Pode parecer sem importância lembrar uma rebelião popular ocorrida há 183 anos e em uma região tão peculiar como é o norte do Brasil. No entanto, a situação dos mais pobres que, naquele contexto do século XIX se chamavam cabanos, agora se estende pelas periferias de todas as cidades brasileiras. De norte a sul do Brasil, quem passa pelas ruas se espanta com a multidão de pessoas em condições de extrema vulnerabilidade, como que jogadas à própria sorte, acampadas nas ruas e praças. Nesses tempos do governo Temer, a população de rua se multiplicou. Do mesmo modo, as estatísticas revelam que, diariamente, nas periferias urbanas, o número de pessoas assassinadas, principalmente de jovens pobres, a maioria negros, já configura uma realidade de guerra social. Como esclarece o papa Francisco: "uma guerra em pedaços e realizada de pouco em pouco". Essa situação de extrema desigualdade e injustiça social só pode gerar violência e explosão social. Há 50 anos, em Medellín, os bispos católicos da América Latina denominaram a situação do continente como uma "violência estrutural".

A revolta dos cabanos tinha como objetivo libertar o Grão Pará do império brasileiro. Entretanto, o único objetivo que unia a todos era conquistar o governo. Os revoltosos não conseguiram formular nenhum projeto social para essa província que, durante cinco anos, governaram.  Faltou um programa que organizasse a sociedade de modo diferente. Atualmente, no Brasil, existem duas frentes de movimentos sociais que reúnem, cada uma, dezenas de organizações, partidos e entidades da sociedade civil. Esse ano de 2018 será um tempo de diálogo com todas as categorias de trabalhadores para que surja daí um projeto alternativo para o conjunto da sociedade brasileira. Para as eleições desse ano, devemos exigir dos candidatos um claro programa de governo. Não basta cada um provar que é melhor do que os adversários. O mais importante é um programa partidário que contenha as reformas estruturais e pensadas a partir do povo e não do interesse da elite e das multinacionais.  

 As pessoas que procuram viver uma espiritualidade libertadora sabem que, mesmo quando o povo pobre parece um ramo ressequido e sem vida, uma chuva repentina pode provocar um renascimento libertador. Nesse tempo de Natal, por todo o Brasil, muitas comunidades cristãs cantaram: "Da cepa, brotou a rama, da rama nasceu a flor, da flor nasceu Maria, de Maria, o Salvador".

Marcelo Barros
Marcelo Barros é monge beneditino e teólogo especializado em Bíblia. Atualmente, é coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). Assessora as comunidades eclesiais de base e movimentos sociais como o Movimento de Trabalhadores sem Terra (MST). Tem 45 livros publicados dos quais está no prelo: "O Evangelho e a Instituição", Ed. Paulus, 2014. Colabora com várias revistas teológicas do Brasil, como REB, Diálogo, Convergência e outras. Colabora com revistas internacionais de teologia, como Concilium e Voices e com revistas italianas como En diálogo e Missione Oggi. Escreve mensalmente para um jornal de Madrid (Alandar) e semanalmente para jornais brasileiros (O Popular de Goiânia e Jornal do Commercio de Recife, além de um jornal de Caracas (Correo del Orinoco) e de San Juan de Puerto Rico (Claridad).
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