17 Jan 2018 | domtotal.com

Mudar para permanecer

Nós temos a capacidade não só de nos refazermos, mas de sermos múltiplos.

Cena do espetáculo
Cena do espetáculo "Essa Mulher", do Grupo Teatral Leela. (Reprodução/ Grupo Teatral Leela)

Por Gilmar Pereira

Alguns atores costumam dizer que gostam de sua profissão porque nela é possível viver diferentes vidas. Os poetas têm algo parecido, tanto que Fernando Pessoa, que assumiu alguns heterônimos dizia: “O poeta é um fingidor./ Finge tão completamente/ Que chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente”. Digamos que o artista, como na lógica antropofágica, pode ser outro sem deixar de ser ele mesmo.

Não é à toa que Ana Carolina, na música “Rosas”, canta que “De tantas mil maneiras que eu posso ser/ Estou certa que uma delas vai te agradar”. Nós temos a capacidade não só de nos refazermos, mas de sermos múltiplos. E isso é importante dado que algumas pessoas não querem mudar determinados hábitos na alegação de que estariam traindo a si mesmas. Ora, na multiplicidade que nos compõe, continuamos sendo quem somos mesmo se nos transformamos.

Essa dualidade de mudança e permanência já foi longamente debatida desde a Antiguidade na ideia de que um homem nunca atravessa duas vezes o mesmo rio, já que nem ele nem o rio são mais os mesmos. Acontece que buscamos em nós um núcleo duro ou uma essência que justificaria nossa incapacidade (ou preguiça) de mudar. Contudo, a essência humana é a existência. Dito de outra forma, a gente é aquilo que vai sendo e são nossas mudanças aquilo que nos compõe.

E porquê precisamos aprender a mudar? Porque o mundo muda e precisamos nos adequar para não ficar sem lugar. É claro que nem sempre se deve recuar. Há avanços e conquistas importantes, bem como valores que não são renunciáveis. Isso é o que dá coerência nas mudanças. Não é porque a maioria das pessoas é desonesta em determinado lugar que você também deverá ser só para ser aceito. Ao contrário, como permanecer num lugar assim sem se trair? Há ambientes laborais onde isso é realidade, onde a competitividade faz com que uma pessoa queira subir à custa do outro. Uma pessoa franca e aberta sofre em tais lugares porque não pode confiar. Ela precisará mudar, não na sua honestidade, mas no controle daquilo que diz e como diz. Talvez seja mais silenciosa ou contida. Mudará sem deixar de ser quem é.

Aí encontramos um dos pontos delicados da vida. Há coisas para largar e coisas para se apegar. Saber a hora e o momento certo, saber quando é tempo de insistir e quando é tempo de deixar exige sabedoria. Esta não se aprende em manuais ou livros de autoajuda. Antes, aprende-se na experiência e ao custo de muito sofrimento. Por isso, a flexibilidade é virtude a ser cultivada. Os místicos sempre ensinaram o caminho da renuncia e da ascese como modo de se tornar livre em relação à tudo, desapegados. Por isso já se diz que quem quiser se salvar vai se perder. Descentrar-se de si possibilita a liberdade. Uma pessoa descentrada, livre do fechamento no próprio “eu”, poderá ser quem quiser sem deixar de ser ela mesma.

44ª Campanha de Popularização Teatro & Dança

Por falar na possibilidade de viver diversas vidas e no ofício do ator, Minas Gerais vive a Campanha de Popularização do Teatro & Dança. Com apresentações até o dia 4 de março, o evento chega à sua 44ª edição e traz mais de cem espetáculos de teatro, musicais e de dança - adultos e infantis. A campanha acontece em BH, Contagem, Betim, Sete Lagoas e Nova Lima. Confira a programação completa no site Vá ao Teatro MG.

Gilmar Pereira
Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, graduado em Filosofia pelo CES-JF e em Teologia pela FAJE. Apaixonado por arte, cultura, filosofia, religião, psicologia, comunicação, ciências sociais... enfim, um "cara de humanas". Escreve às sextas-feiras.
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